10 maio 2007

A Culpa pelo Atraso Brasileiro

De quem é a culpa pelo atraso brasileiro? Este é um assunto recorrente nas rodas de bate papo. Quais são os problemas que impediram ou impedem o país de se desenvolver? O que se opõe ao Brasil atingir sua vocação de "gigante pela própria natureza"? Os diagnósticos são os mais variados, mas muitos deles se baseiam, na minha opinião, em preconceitos.

Temos a tese separatista, defendida geralmente por pessoas de imigração recente que acreditam que o culpado pelo nosso atraso é o Nordeste, que o Brasil carregaria nas costas, e vivem lamentando a presença dos migrantes nordestinos. Pessoalmente, considerando a origem do nosso presidente e a decisiva votação obtida por ele na região em sua reeleição, quando teve em torno de 80% dos votos, até me sinto tentado a apoiar este argumento. Entretanto, não conheço nenhum país que tenha se fortalecido dividindo-se.

Outra idéia comum, especialmente entre os intelectuais ateus, é a questão das nossas origens católicas e a incompatibilidade entre o capitalismo e o catolicismo, que via o lucro como um pecado, o que teria enfraquecido a livre-iniciativa. Além disso, acredita-se que a doutrina católica (cristã) da salvação não exige esforço individual pois haveria salvação pela graça, o que não estimula as pessoas.

A tese da colonização portuguesa também é bastante popular. Seríamos assim porque recebemos um monte de degredados da "terrinha" que trouxeram para cá todos os vícios imagináveis. Muitos adeptos desta tese lamentam a expulsão dos holandeses. O curioso é que muitos portugueses não se consideram europeus e têm uma auto-estima muito baixa. Acho que uma de nossas diferenças em relação a eles é que somos bipolares, temos momentos alternados de euforia megalômana e de depressão lusitana.

A tese da exploração marxista da colônia pela metrópole também é bastante forte. Segundo esta visão, os portugueses roubaram o ouro de Minas Gerais e o entregaram aos ingleses, e nos teríamos tornado preguiçosos porque tínhamos os escravos africanos para explorar. Desta forma, teriam se formado instituições decorrentes deste sistema de exploração ligados a uma elite indolente e a um povo ignorante e analfabeto que juntos teriam impedido o desenvolvimento do país.

Temos ainda um vertente nacionalista que acredita que a culpa é dos Estados Unidos, que apoiaram o golpe que derrubou o Imperador Dom Pedro II apoiando o Exército pró-república contra a Marinha Imperial. Em decorrência disto, teríamos submergido na República dos Coronéis até sermos salvos pelo "coronel", "ditador" e fundador do Estado Brasileiro, Getúlio Vargas - o "velhinho" pai dos pobres, o criador da CLT e homem que implantou a CSN em hábeis negociações com os americanos. Aliás, o pragmatismo de Vargas incomodou tanto os americanos que apoiaram a sua retirada do poder em 1945. Mais tarde, os EUA também teriam sido culpados pelo Golpe de 64, o que teria impedido o Brasil de seguir os passos gloriosos da Revolução Cubana de 1959.

Sob alguns aspectos, um país se comporta como uma pessoa. Tenho certeza que todos já viram adolescentes, adultos ou velhos culpando os seus pais ou sua família por todas as desgraças que ocorreram em suas vidas. Alguns nunca chegam a ter maturidade suficiente para assumir os seus atos. Um dos mitos a que estamos afeiçoados para atenuar as nossas responsabilidades é o de que o Brasil é um país jovem. Nem tanto; nossas primeiras ondas de colonização datam de 1530, enquanto as dos americanos começaram 100 anos depois. Acho que a solução dos nossos problemas começa com os indivíduos assumindo a responsabilidade pelos seus atos.

Não podemos nos esquecer dos agricultores japoneses que chegaram aqui há cerca de 100 anos com uma mão na frente e outra atrás, discriminados por serem orientais e que após muito trabalho plantando as suas hortinhas constituem hoje uma minoria rica e cujos filhos são temidos em todos os vestibulares.

97 comentários:

André disse...

Seguem algumas idéias que venho juntando há muito, muito tempo. Desculpem pelo tamanho, isso não vai se repetir.

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Não me interessam os aspectos religiosos do protestantismo, mas seu caráter individualista foi mesmo essencial para impulsionar o capitalismo. E o Brasil ficou fechado para isso. Aqui, uma elite mínima discutia Newton no tempo de Voltaire e do Iluminismo. As idéias sempre chegaram aqui com pelo menos um século de atraso. O Brasil estava entregue às vacas na segunda metade do Séc. XVII, quando começou a Revolução Industrial na Inglaterra. A culpa é de Portugal, diremos, mas Portugal, quando muito, auferia o filé mignon do nosso gado. Também estava, e permaneceu séculos, estalado num feudalismo repressivo, de que nem as semi-reformas do Marquês de Pombal, superficiais e contendo em si próprias o reflexo ofuscante do atraso que se propunham combater, alteraram na base.

A própria interpretação materialista da História, por sinal, seja a do acadêmico marxista ou a do tecnocrata, é um obstáculo à compreensão do nosso passado, porque nega a dimensão espiritual, extra-econômica, do pensamento e comportamento dos seres humanos. O cruzado e o colonizador, assim, se iludiriam a si próprios se achavam que o objetivo deles era promover o cristianismo, porque o que fizeram, na prática, foi pilhar os índios e os muçulmanos. Marx aplica esse tratamento com grande sucesso intelectual a diversos períodos históricos, ainda que seja tedioso nos escritos dele que os homens estejam sempre tropeçando na vida porque não anteciparam ou leram... Marx.

Nossa vida é calcada, em boa parte, em ilusões e fantasias, e, estas, como tudo mais, tendem a sedimentar culturalmente através de gerações, a tal ponto e com tal variedade e contradições, que não é fácil separar o “real” do “imaginado”. Grandes intelectuais racionalizam o que, pressentimos no íntimo — apesar de intimidados pela lógica dos pensadores — foi uma enorme confusão. Em alguns momentos, a História parece mais clara do que em outros, quando há rupturas de tradição. Esse é o caso da revolução protestante e, em nosso tempo, da soviética. Ir além disso é cair no metafísico, ainda que pretensamente materialista e “científico”.

A Igreja, antes de Lutero, estava longe de ser um monolito de tranqüilidade e conformismo. Sempre esteve à beira da cisão por heresias mil, suprimidas com violência. Na chamada Renascença, gente como Erasmo de Rotterdam pregava uma humanização do hermetismo medieval e bizantino que sugeria um paralelo espiritual do humanismo artístico de Giotto, Dante e Petrarca, na esfera secular. E a Igreja, não raro rachada em duas ou três, de Roma a Avignon, se secularizava na permissividade de costumes, que tanto chocou o provinciano Lutero e predecessores como John Wycliffe e John Huss (que traduziram a Bíblia para o vernáculo, antes de Lutero).

O importante no destino brasileiro é que a colonização se processou sob a Igreja da Contra-Reforma, cujo agente mais radical foi a Companhia de Jesus. Os jesuítas entraram na nossa história numa forma lendária de progresso e benevolência, quando, na realidade, não importa que pretensões e práticas espirituais nos tenham legado, foram agentes de um medievalismo imposto de cima pra baixo, sem relação com os objetivos de desenvolvimento material que garantiram a emergência de nações que se impuseram ao mundo, da Inglaterra aos EUA. Os jesuítas apareceram como tropa de choque em 1540, antes mesmo que o reacionarismo geral da Igreja ganhasse corpo doutrinário, litúrgico, com o longo Concílio de Trento (1545-1560). A Contra-Reforma negava o próprio conceito de nação, no que este resiste, por definição, à autoridade supranacional da Igreja, ainda que esta tenha se ajustado à soberania de países e grupos que permaneceram fiéis a ela (França, o Império dos Habsburgo, etc).

Seu ideal era a fragmentação da Idade Média, ambiente no qual ela podia servir como barômetro e meteorologista, determinando e definindo tudo que pudesse conter pelas promessas e punições de um futuro eterno de que conhecia exclusivamente o caminho. Onde pôde, a Igreja da Contra-Reforma impediu o progresso histórico do nacionalismo e a criação de uma sociedade em que os homens tentassem assumir o seu destino, decidindo o que melhor lhes convém (isso gerou, pelo processo de tentativa e erro, avanços sociais na Europa protestante que precederam por quase um século a Revolução Industrial, que produziria a base econômica do que chamamos hoje de democracia).

A Inglaterra de 1688, a da “Revolução Gloriosa”, que limitou definitivamente o absolutimso real, seria impensável na Espanha e em Portugal, onde a Contra-Reforma atuou decisivamente na decadência e ruína. A fúria da Revolução Francesa se deve em parte, pelo menos, à necessidade sentida de erradicar a presença retrógrada da Igreja, o principal e infalível alvo de todos os intelectuais iluministas, porque ela era a justificativa espiritual do absolutismo do baronato, das “classes eleitas”, das leis irreformáveis, do “lugar de cada um” na ordem das coisas, do imobilismo social, em suma.

O Concílio de Trento proibiu até que os leigos lessem a Bíblia, de onde Lutero tirou a idéia letal de que se podia falar diretamente com Deus. A Contra-Reforma promoveu o analfabetismo onde atuou, e o impôs onde pôde. Fez uma guerra sistemática à ciência, de qualquer tipo. Autores perfeitamente aceitáveis aos clérigos protestantes, como Newton e Locke, inovadores em seu tempo mas sem qualquer propósito revolucionário, que adiantaram o conhecimento do mundo físico e social do homem, foram banidos do Brasil e Portugal, ainda que uma elitezinha sempre tivesse acesso de contrabando a eles.

O Brasil só começou a ter imprensa e universidades no Séc. XIX, em quantidade parca e restrita, com o padre invariavelmente acoplado à orientação dominante. Isso acontece ainda hoje, quando as travas jurídicas e policiais desaparecem, e a paixão pela censura reemerge em regimes sem pretensão religiosa. É um estigma estrutural da nossa cultura.

O latifúndio, tão demonizado pelos esquerdistas, nada mais é do que uma reprodução colonial do feudo europeu, ideologicamente apoiado no conceito padresco de fragmentar, de dividir para conquistar, de antinação. É claro que ao colonialismo secular também interessava a divisão em capitanias, que não houvesse um centro, mas o próprio Portugal parece paralizado na História. Não foi o país de Vasco da Gama que nos colonizou, mas o da decadência do rei Sebastião, um fanático religioso, e do “sebastianismo”, um exemplo clássico de paranóia coletiva, e o rei esse a quem Camões dedicou Os Lusíadas, mas o poema fala do passado, porque futuro não havia. O último surto epidêmico da Contra-Reforma por lá foi o salazarismo, e desde os 1700, do Tratado de Methuen, Portugal não passou de satélite da Inglaterra, cuja formação cultural é de outra ordem...

Somos contemporâneos dos EUA. Basta comparar a formação dos 13 Estados deles e a nossa, de país livre, “imperial” (quá, quá, quá...), em 1787 e 1824, respectivamente, que as regras dos dois jogos ficam claras. Há muito pouco história do Brasil que analise criticamente nossa formação. Na maioria das vezes, os jesuítas aparecem não como a força repressiva que foram, mas como os que cuidavam das almas dos índios. Não se fala que essa “alma” havia sido descoberta do papa Paulo III (1534-1549), o homem que aprovou a criação da Cia. De Jesus, criou a censura papal e reativou a Inquisição — esse zelo todo era contrastado por hábitos pessoais que nada ficavam a dever aos dos Bórgia, entre eles o papa Alexandre VI, que nos deu o Tratado de Tordesilhas (e o Brasil a Portugal...)

Há os historiadores que descrevem os jesuítas como tirânicos, dissolutos e escravagistas, e os que admitem, p. ex., que o padre Vieira foi o autor da idéia de importar em massa escravos negros, dado o compromisso de salvar os índios, mas que insistem em que os padres impediram maior exploração dos nativos pelos portugueses, ainda que aceitem, contraditoriamente, que alguns Estados (Santa Catarina vem logo à memória...) só foram explorados pelo amor à caça — aos índios.

Não me interessam os pernosticismos de historiadores que querem ficar bem com os poderes públicos, presentes, passados e sobretudo permanentes. Só sei que, no caso, Anchieta é um poetastro dos mais infames, e Vieira é, claramente, um embusteiro, falastrão, adulador de reis e outros potentados, e capaz de idiotices como o “Quinto Império”, em que profetiza que Portugal será o sucessor, em grandeza, depois dos impérios assírio, persa, grego e romano. Isso é sandice, mesmo em meados do Séc. XVII. Vieira continua um modelo para intelectuais, o que não exclui pensadores ateus. É o precursor do lero-lero de nossas elites. Merece “as honras”.

Os padres enfiaram os índios em aldeias, salvando-lhes as almas mas apressando-lhes a morte, pelas doenças contraídas dos colonizadores. Talvez os escribas do Marquês de Pombal, pagos é verdade pra xingar os jesuítas que ele queria expulsar de Portugal, soubessem do que estavam falando.

O espírito da Contra-Reforma, aliado ao colonialismo, reforçou-o a nada criar de permanente, unificado ou progressivo. E muito menos progressista. É saque, puro e simples. Seja de ouro e diamantes, os famosos “ciclos” que só nos renderam alguma literatura e, os mais lucrativos, deixaram in memoriam igrejas nas quais os saqueadores iam pedir perdão pelos seus pecados contra a terra, os índios e os negros. O que certamente conseguiam, depois de pagar a comissão dos padres, esses empreiteiros de almas.

Os espanhóis ao menos criaram grandes centros urbanos, talvez devido ao grande influxo de judeus, antes da expulsão, e por muitos deles terem se convertido. Seja como for, criaram um espírito mercantil e de progresso. Coisa que o português parece nunca ter experimentado. No que teve o apoio dos padres, que deviam reter na memória as acusações dos protestantes de que Roma era a “prostituta da Babilônia” (nos tempos de Lutero certamente foi o maior bordel do Ocidente). Logo, o Brasil só tinha direito a um amontoado de vilarejos em que só os padres, os ricaços e os funcionários públicos tinham vez.

Herdamos da Contra-Reforma o senso de fatalismo e de transitoriedade inútil na vida brasileira. Adaptando um pouco Vieira: “no estado miserável do reino... o mundo do nosso prometido império não é mundo nesse sentido”. O bom padre, em suma, só nos promete a vida eterna de prazeres se nos prostrarmos diante de Jesus. O resto é miséria agonizante à espera da graça.

É claro que a natureza humana aspira a mais. Essa aspiração, censurada, levou à mentalidade do saque. Todo o conhecimento do homem e do ambiente passa pelo crivo do padre, que elimina qualquer dado ou fato que possa dar margem a interpretações “heréticas”. O conhecimento é pasteurizado e congelado em preceitos medievais, limitando as ações dos recipientes. O tal saque, a mentalidade de tomar tudo até a última gota, é fruto de uma repressão recheada de moralismo rastaqüera, além da ignorância de como melhor usar, de manter e expandir, o que se tem à mão. Esse instinto acaba explodindo irracionalmente e sem conseqüência que não seja sua satisfação rápida e finita.

É típico, por exemplo, que a coroa e a nobreza portuguesas trocassem o que lhes cabia em ouro do Brasil por produtos de luxo ingleses, que utilizaram esse ouro para lastrear sua Revolução Industrial. Simplesmente não parecia ocorrer às toupeiras de Lisboa uma sociedade mais produtiva, uma sociedade que não essa do assalto medieval. Isso casa bem com o espírito da Contra-Reforma: do mundo não só nada se leva como nada frutifica... Esse imbecilismo hedonista lusitano está profundamente entranhado na mentalidade brasileira, na idéia de que o Tesouro do país é dinheiro achado na rua e nos trambiques monumentais dos homens de negócios do “lucro rápido”.

O erro central dos críticos materialistas de nossa história é achar que tudo isso já passou, afinal, esse negócio de Igreja hoje é uma relíquia, de interesse mais turístico do que político.

Não há dúvida de que nos secularizamos. Desde a Velha República, o pensamento das elites se volta para soluções materiais dos problemas brasileiros. O Positivismo é predominante, esse progresso por decreto, de cima pra baixo, imposto pelo mecanicismo científico, às vezes enfeitado com livros-texto que mais parecem livros de Administração de Empresas. Mas é progresso o que se quer ver. Já na Velha República, as frustrações dos positivistas deram em várias revoltas de jovens cheios de entusiasmo por reformas várias, todas fracassadas, naturalmente. Mas a tal revolução de 30 tinha um ideário vasto e alguma coisa foi feita.

Se rasparmos a conversa fiada, ideológica, dois temas sobressaem constantemente: a culpa é dos estrangeiros e a corrupção dos homens públicos é o entrave principal ao progresso. O primeiro é entremeado de contradições grotescas. Os professores nacionalistas imprecam contra os assaltos dos portugueses aos nossos recursos mas veneram o ex-colonizador, da mesma forma que se insulta os EUA mas se vai fazer compras em Nova York. Os ingleses, que nos dominaram por procuração a Portugal, não merecem esse saudosimo, talvez porque “frios”, ou por terem saído do palco em 1945 e nossas gerações seguintes terem crescido alienadas.

Esse sentimento de “saudades da senzala” serve para nos afastar de nossa responsabilidade na construção do atraso. Mistura imaturidade, covardia moral e falta de caráter. Culpamos portugueses e americanos pelo que somos, mas não queremos que eles nos abandonem. Afinal, são nossos bodes expiatórios, da nossa irresponsabilidade e incompetência. Me vem logo à cabeça Juscelino, que tirou o Brasil da roça com sua industrialização — cotó, castrada, mas importante — um homem de temperamento democrático e empreendedor, e no entanto prostrado em êxtase em face do feudalismo “estado-novista” de Antonio de Oliveira Salazar.

Quanto à corrupção, isso é uma simplificação. Ela cobre boa parte da história, mas corrupção pública nunca foi medida de sucesso político ou econômico. Se fosse, os EUA estariam como o Brasil. “Temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”, notou Mark Twain, entre outros.

Engraçado: a Igreja, essa multinacional, nunca foi chamada de imperialista, apesar de ser essa, imperialista, estrangeira e romana, a identidade que tem junto aos nacionalistas protestantes de outros países. Acreditamos que o catolicismo, por mais repulsivamente retrógrado que nos pareça, é “nosso”, como a Petrobrás. Ela levou muito mais em riquezas do que qualquer colonizador. Hoje, tendo perdido quase todo o poder de interferir na direção política das nações, à exceção de alguns países, ainda é participante ativa do debate público. Mesmo tendo perdido a coesão ideológica, depois do Concílio de 1962-65. Se mete em tudo. O Papa se acha com pleno direito de fazer comícios sobre a política populacional de países pobres e ricos, política sexual, nuclear, alocação de verbas orçamentárias... É o chefe de Estado de uma nação estrangeira quando está fora ou dentro do Vaticano, mas uma personalidade forte na vida política italiana. E a Itália teve que literalmente fazer guerra ao Vaticano para se tornar uma nação unida.

É extraordinária a imunidade relativa de que a Igreja gozou na demonologia de nossos esquerdistas e nacionalistas. Até os críticos positivistas, no Séc. XIX, se concentravam mais no obscurantismo dos padres do que na influência política direta que exerciam. De qualquer forma, a maioria decisiva no Brasil acha que vale a pena aturá-la. Isso nunca é assumido, porque implicaria em assumir certas responsabilidades.

Há uma evasão, uma fuga, verificada também nas crônicas tidas como heróicas, porque, despidas de fachada e de pernosticismo verbosos, sempre emergem ridículas. Não faz sentido o desmembramento do país que um Frei Caneca propõe, em nome do liberalismo (qual e o que não fica jamais claro). E a ficha corrida de Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa complementa a irrelevância real do “canonizado” Joaquim da Silva Xavier. Há também a deprimente consciência, mencionada no início, de que as idéias chegam aqui atrasadas.

Atribuir esse marasmo à pura e simples exploração estrangeira é uma forma de suicídio intelectual. É inacreditável. Fizemos um país de que nunca veremos igual. Não devemos ser tão modesto em responsabilizar o próximo por nossa condição.

O próprio Vieira era capaz de relances do real, ainda que os utilizasse quase sempre para adular poderosos, que seriam diferentes de seus antecessores, a quem o padre ataca, e no ataque percebemos que ele fala do que é, e não do que foi. A crítica é sempre indireta, nunca frontal e concretamente subversiva. Há sempre um bom-mocismo esperançoso e piegas no Brasil, que permite ao crítico uma retirada estratégica se o pau comer sobre ele por ter violado o consenso de uma elite que se julga acima do bem e do mal, e que claramente está muito acima do gulag social.

A Igreja, algo enfraquecida e bastante dividida, adora protestar contra o “excesso” de materialismo, como se houvesse excesso de todos, e contra esta “obsessão vulgar” de se ter uma boa vida. Esquerdistas católicos também partilham desse credo, querem que o rebanho sobreviva, estão até dispostos a brigar pelo rebanho, desde que este não vire um “bezerro de ouro” bíblico. O espírito feudal e totalitário da Contra-Reforma muda de forma, não de substância, entre os fanáticos.

O horror de Marx pelo capitalismo é admirado, um tanto primariamente, por uma ótica míope. O fascínio dele pela revolução capitalsita, ainda que ele lhe dê uma função histórica finita, é ignorado. Ou se dá a “volta por cima”, com táticas de Lênin e Trotsky. Tudo se justifica.

Nosso capitalismo e modernização foram superpostos a uma estrutura que continua no passado, ainda que aqui e ali, à beira das estatais que simbolizam um futurismo de realizações, e se consome no saque aos cofres públicos, ou na plantação que absorva um mínimo de miseráveis de uma terra desolada e desperdiçada. O custo desse “desenvolvimento” é pago pelo lombo surrado da maioria, enquanto as elites discutem qual modelo é o melhor, um que só os abrange — e a uma classe média auxiliar também. O resto que se dane, e se dana.

A idéia de que um centro de poder absoluto é a fonte e origem da felicidade ainda parece irremovível. Assume muitas formas, se apresenta como ditadura absoluta, democracia absoluta ou, a mais nova, a “sociedade civil” absoluta.

O voto do “coronel” vale o de milhares de trabalhadores do Centro-Sul, os decretos (ou, eufemisticamente, as atuais “medidas provisórias”) baixam sobre nós como os atos de Deus sobre o povo judaico, de quem a Contra-Reforma batoteou o Testamento, e assim as coisas vão. Ou não vão. Tudo pelo povo, nada para o povo, a la Pedro I. Desenvolvimento, aqui, só aquele feito pela autarquia.

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P.S.: A Indonésia foi colônia holandesa e se deu mal. Mas isso depende do povo. Não sei se um domínio holandês aqui, com a expulsão dos tamancos portugueses, teria dado certo.

C. Mouro disse...

Perdoem-me por sair um pouco do assunto - mais um excelente post neste diferenciado blog - mas não posso deixar passar embranco; tem que ser na hora.

Desde que tomei conhecimento do besteirol marxista (+d20) me veio a idéia, e muito a expus cada vez mais justificada. Não conseguia nem puxar um debate a respeito, tal o temor que suscitava tal "heresia blasfêmica" que poderia lançar no limbo quem ousasse. Era o medo que se tinha de contrariar o que parecia o senso comum e intelectual ..o medo da opinião alheia, a "espiral do silêncio"

...Mas neste instante que dou uma lida nos títulos do Casa Grande, leio o artigo da Christina Fontenelle e.... para minha surpresa:

"Para o famoso teórico, o capitalismo caminharia inexoravelmente para a autodestruição determinada pela irreconciliável luta de classes - entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. Hoje, a realidade comunista provou que o comunismo não é nada além do capitalismo abraçado, autoritária e exclusivamente, pelo Estado – que se torna o único patrão."
.
Estou redimido, nas nuvens, posso já ficar meses sem escrever.
(obs.: não é o caso da corrupção do vocabulário não)
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Mil perdões pelo desvio, mas de qualquer forma, o besteirol de Marx tem relação com " A Culpa pelo Atraso Brasileiro". Essa ideologia sempre criou preconceitos para fomentar atraso emn todos os lugares onde chegou.
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Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Até por vezes brinco que essa é a verdadeira dialética de Marx. ...hehehe!

Abraços
C. Mouro

Paulo C. Barreto disse...

O mito fundador da nação brasileira é a defesa contra piratas lourinhos de olhinhos azuis. Contra o branco-rico-cristão-capitalista, vale tudo.

Bocage disse...

Os portugueses subtraíram nosso ouro e nosso pau-brasil, violaram nossas índias, trouxeram a varíola e outras doenças, nos presentearam com sua dívida externa após nos termos tornado independentes pela mão de um português que nos abandonou ao caos e às revoltas da Regência para disputar a sucessão portuguesa pela filha e contra Dom Miguel.

E nós lhes demos a IURD - Igreja Universal do Reino de Deus.
Penso que estamos quites, não?

Bocage disse...

Como sugeriste, Catellius, fui promovido a anônimo com rosto falso e assinatura digital, rs

Catellius disse...

André, Heitor e Mouro,

Já comento o texto e seus comentários.

Bocage,

Criou uma conta, afinal! Algumas pessoas chegaram até a se perguntar se você não seria Glauco Mattoso, o cego poeta responsável pelo site cujo endereço você indicava no campo "Sua página da web".

Sei que você estava brincando, mas, em primeiro lugar, acusar Portugal de ter "roubado" nosso ouro é um grande de um absurdo. "Nosso"? Mesmo que fôssemos descendentes de índios Tupis, não teria feito muita diferença se tivessem levado para Portugal seixo rolado ao invés de ouro.
Como nós brasileiros somos muito mais fruto da civilização européia do que da civilização neolítica que havia por aqui, reclamarmos dos europeus soa tão absurdo quanto um sujeito encontrar em uma ilha deserta uma carteira cheia de dinheiro, tomá-lo para si, dá-la a um filho e este reclamar, anos depois, que seu pai roubou o dinheiro de sua carteira. Nós somos os filhos dos europeus que tiraram algo que para eles tinha valor de um lugar praticamente desabitado cuja população não possuía sequer escrita, estando, por isso, condenada a ter de reinventar a roda a cada geração, e que hoje reclamamos da motivação de nossos antepassados em vir para cá. "Mas a colonização inglesa foi diferente", dizem. Exilar puritanos e outros indesejáveis da Inglaterra era, por acaso, um plano de ocupação que visava criar a maior potência do século XX? Era essa a intenção dos degredados?

Depois continuo.
Abraços a todos

André disse...

“não teria feito muita diferença se tivessem levado para Portugal seixo rolado ao invés de ouro.” “Nós somos os filhos dos europeus que tiraram algo que para eles tinha valor de um lugar praticamente desabitado cuja população não possuía sequer escrita...”

Gostei dessa!

Catellius disse...

"Seguem algumas idéias que venho juntando há muito, muito tempo. Desculpem pelo tamanho, isso não vai se repetir."

Nada disso, he he. Pode mandar à vontade. Vou começar a ler agora. Hoje o bicho pegou aqui no escritório.

Bocage disse...

Heitor, esqueceste da tese racista, da Patricia M:

'...a chave do problema: a natureza do brasileiro. Estou falando do povo como um todo, e nao de pessoas especificas. O brasileiro realmente nao esta ai para nada, seja pobre, rico ou classe merdia. Ele so pensa no proprio umbigo, e tem sangue de barata. Parece que a tal "maravilhosa" miscigenacao ocorrida no Brasil, o tal melting pot, caldo de cultura, o que mais voces quiserem chamar, nao teve os melhores resultados nao, em termos geneticos. Produziu isso aih, esse abominavel povo bunda.'


rsrsrs

Bocage disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André disse...

Eu acho q o brasileiro é mole, indolente, acomodado, babão, mas vejo isso como algo cultural.

Essa teoria da Patrícia está muito errada. Uma das coisas q mais gosto no Brasil é a miscigenação. Sem ela, não teríamos as mulheres q nós vemos por aí (só pra ficar num aspecto mais canalha da coisa, he, he, há outras vantagens também)

Biologicamente, raça não faz sentido, já q somos todos da mesma espécie, essa sim importante. Mas vai dizer isso para um morador lá da Baviera, com a suástica ainda tremulando fora de sua linda casinha em estilo colonial...

Essa garota q freqüentava o Pugnacitas não tinha essa desculpa (estreiteza mental). Não deveria achar q somos o q somos porque demos numa "raça degenerada".

Às vezes gosto de dizer que houve uma "queda genética" na humanidade, e tem gente q leva a sério...

Simone Weber disse...

Esquece isso, Bocage! Que é que estás para aí a falar, magoado por ela ter abandonado o blog? Amanhã é outro dia. Toma um cigarro, espera; quem sabe se ela não voltará para cá? :-)

André disse...

Resolvi dar um tempo na apostasia ("afastamento deliberado das doutrinas e crenças que antes eram mantidas e defendidas com firmeza", nossa, eu sou mesmo um pecador, com direito até a definição no dicionário) e ver na TV a canonização do "nosso" primeiro santo.

É isso aí, agora quando eu chegar no Céu, já q não falo latim, e duvido q lá falem inglês (essa língua por demais mundana), já tenho um santo a quem me dirigir na minha própria língua.

Domine, Ora Pro Nobis! Sapatinhos Vermelhos é um perigo!

Excelente final de semana pra todos!

Catellius disse...

Sobre o Sapatinhos Vermelhos, acho engraçado ele ter sido escolhido sob o auxílio do tal Espírito Santo.

A pomba não presidiu o último conclave. O caráter político da eleição do Papa Bento XVI foi muito mais forte do que se divulgou até hoje. O cardeal alemão Joseph Ratzinger deu sinal verde para sua candidatura, mandou dizer aos colegas que aceitaria ser Papa e fez uma forte campanha nos bastidores para tornar-se Bento XVI. Chegou a contar com a ajuda de um grupo influente de cardeais conservadores como cabos eleitorais. Esses cardeais pró-Ratzinger passaram a sondar os colegas em conversas reservadas logo após a morte do Papa João Paulo II. Com isso, Ratzinger entrou para o conclave, no dia 18 de abril, praticamente eleito.
O relato foi feito por um dos quatro cardeais brasileiros que participaram da votação — a mais secreta e misteriosa do mundo contemporâneo. O cardeal revelou os bastidores do conclave ao O GLOBO sob condição de anonimato. Ou seja, foi automaticamente excomungado, ainda que tenha agido anonimamente! Habemus cardealis excomungatum, ha ha ha

Ricardo Rayol disse...

O nosso atraso é decorrente de todas as marcutaias. Se todo o dinheiro roubado nesse país fosse direcionado a quem de direito, isto é, nós contribuintes essa merda estava em outro nível. Como é que podem sumir com US$ 30 bnilhões?

Bocage disse...

Simone espirituosa! Tens razão, rsrs, sinto um quê de nostalgia das mulheres que debandaram para longe do Pugnacitas (não quero ofender-te): Magui, Luisete, Patricia M, Clarissa, Sônia, Susy e outras sem muito estômago para críticas e virulências (do jeito que eu gosto). Criemos uma regra: é vedado discordar de mulheres por aqui. Quando entrarem, mudemos de assunto e passemos a escrever sobre amenidades, rsrsrs

Anônimo disse...

- Resolvi dar um tempo na apostasia -

o Papao Ratozinger logrou assustar com suas ameacas mais uma ovelha desgarrada

Heitor Abranches disse...

Interessante o seu texto André....É um desafio explicar o nosso fracasso. Outro dia estava conversando com uma madre superiora de uma ordem destas e ela me dizia que há anos elas haviam desistido de dar aulas para as filhas da elite e que hoje o foco da ordem era dar consciência social aos pobrezinhos....Então, curioso como sou perguntei-lhe em que consistia isto...Era basicamente um grupo de religiosas que davam aulas em comunidades carentes ensinando a elas os direitos que elas tem como filhos de Deus, como cidadãos e como o Estado tinha a obrigação de prover como a divina providência e que se não provesse eles deveriam cobrar e se não desse eles deveriam tomar.
Achei lamentável que os recursos fossem desperdiçados ensinando-se ao povo a permanecer infantil e dependente. Era uma boa senhora...da alta cúpula da ordem e que só tinha superiores em Roma mas...faltava-lhe visão como talvez a mim falte coração.

Heitor Abranches disse...

Por que não ensinar ao povo hidráulica, mecânica, eletricidade, técnicas básicas de construção, culinária,...???

Heitor Abranches disse...

Por que não financiar seus pequenos negócios e dar-lhes noções básicas de administração?

Catellius disse...

Em qualquer campo de atuação humana que seja respeitável há disputa por cargos, há meritocracia, há uma espécie de funil. Para ser religioso, contudo, basta não ter vocação para mais nada, basta estar passando fome ou não ter sucesso com as meninas(os). E depois essa turma cresce e quer discutir ciência com pessoas que, embora falíveis, deixaram milhares para trás no vestibular, na graduação, no mestrado, no doutorado, na corrida por publicações em revistas especializadas. Não estou dizendo que uma "autoridade" pode falar o que bem entender, que apenas por ter tal credencial fulano está certo. Estou tão somente constatando o óbvio, que é a origem do "concurso" de bobagens que parece existir entre os religiosos da ICAR...

Heitor Abranches disse...

Eu gosto bastante do Ratzinger,

A Igreja e a guardia da Alma, do Inconsciente, da Transcendencia...Ela nao pode concordar com a tranformacao do ser humano em puro egoismo e busca de prazer...Se ela concordar com isto ela desiste da Transcendencia...da esperanca de Verdade...

Discordo apenas que o Estado deve permanecer separado da religiao...a sociedade aberta deve prevalecer...Embora pareca tentador...nenhum absolutismo deve prevalecer.

André disse...

Obrigado, Heitor. Acho q eu consegui dizer muito do q queria com aquele texto.

“e como o Estado tinha a obrigação de prover como a divina providência e que se não provesse eles deveriam cobrar e se não desse eles deveriam tomar.” Nossa, elas ensinam mesmo isso? Meio assustador...

“faltava-lhe visão como talvez a mim falte coração” Não sei bem o que é não ter coração, porque tem gente q acha q eu não tenho, enquanto outros acham q eu tenho um do tamanho do mundo. Prefiro esses últimos, claro!

Concordo. Por que não ensinar coisas úteis ou algum tipo de empreendedorismo? Ensinam táticas de guerrilha urbana também?

“basta estar passando fome ou não ter sucesso com as meninas(os).” Mas há padres q se dão bem, dependendo das mulheres disponíveis em sua paróquia. E elas muitas vezes dão em cima.

Eu admiro a formação intelectual do Papão Ratozinger (o anônimo q escreveu essa está de parabéns), acho q o JPII era meio burrão. Mas eu não sei, teria q conhecer o Papa pessoalmente pra poder dizer: “Ah, esse cara é mesmo um senhor intelectual, e ainda tem boas intenções e idéias.” Algo assim.

Pode parecer bobagem, mas estou até agora impressionado com o português dele. Que pronúncia. Parece até um imigrante estrangeiro vivendo há muito tempo aqui. Melhor q o do Lula, ha, ha.

A Igreja tem o direito de achar o que quiser sobre o que ela quiser, mas é claro q isso vai se chocar com o q a sociedade acha disso e daquilo. E com o q eu acho, e ele, e o outro ali... E certas posições, por mais atacadas ou intransigentes que sejam, a Igreja sempre terá. Acho q ela jamais vai mudar sua posição sobre o aborto, p. ex. Não pode, em nenhum caso, ponto. Homossexualismo? É anti-natural, ponto. E assim por diante.

A separação entre igreja e estado não tem mais volta, onde já aconteceu. Acho indispensável. Mas isso não quer dizer q o estado possa ignorar uma religião forte como a católica. Tem q haver uma coexistência civilizada, mas é complicado.

C. Mouro disse...

Bem, a coerência da Igreja é incoerente, afinal há a recomendação "Não julgueis para não serdes julgados", e não julgar é não conceber juizo, muito menos emitir.

Tem também o perdão incondicional como virtude. Deve-se perdoar sempre, e "que atire a primeira pedra aquele que nunca pecou".

E o mérito está em amar os inimigos, pois amar os amigos, até os maus o fazem. Ou seja, a Igreja, representada pelos clérigos, deve amar exatamente seus inimigos, assim recomenda o filho de deus.

Mas também há uma recomendação para não se acumular tesouros na Terra, e certamente o significado disso não é o de não enterrar baús cheios de jóias. Mas mesmo assim a Igreja católica é a empresa mais rica do mundo. Contudo os clérigos não vendem tudo que têm para distribuir aos pobres e assim poderem seguir Jesus.

Enfim, as ideologias são sempre repletas de contradições e comportamentos contraditórios. E é exatamente isso que as fortalece, pois cada um encherga apenas o que lhe interessa, bem como a tudo interpreta da forma que lhe convém; são como porcos encebados.

Mas que as roupas do papa parecem fantasias de destaque de escola de samba, isso parecem.
Ou seja, se o objetivo é diferenciar aquele que foi estabelecido como diferente dos reles mortais, periga ser confundido com o Mauro Rosas ou Clóvis Bornay.

Abraços
C. Mouro

Heitor Abranches disse...

Sabe Mouro,

Um dia fui visitar o Museu Imperial de Petropolis e me daparei com a roupa da coroacao de d. Pedro II. Adivinha? E igualzinha a uma roupa de Rei de Escola de Samba...Por que? Porque elas copiaram dai....

O nucleo da doutrina Crista e o amor a Deus e a sua manifestacao, a Verdade...E tudo coerente...Julgar o proximo nos afasta da Verdade...O homossexualismo afasta o homem da Verdade...

O problema e que a Verdade e uma experiencia transcedental dificil de ser autenticada...pois muitos que dizem te-la sao apenas malucos como parece ser o caso deste leonardo boff que vai a TV criticar o patriarcado com aquela cara barbuda de patriarca...E mais um hipocrita. Como dizia um amigo meu...joga para a arquibancada.

André disse...

o homossexualismo afasta o homem da Verdade? Bom, então eu não corro esse risco, de ficar longe dela, porque estou no outro time...

Mas não acho que uma mera preferência sexual afaste o homem da Verdade. Sö o aproxima um pouco "demais da conta" de outros homens, mas felizmente nesse particular sou ignorante, burraldo!

Mas, brincadeiras à parte, entendi o q vc quis dizer, isso aí é o q vale na doutrina cristã, claro.

E, como ainda há um monte de pagãos...

Eu acho meio perigoso isso de buscar a Verdade, com V maiúsculo. Talvez ela esteja nas pequenas coisas da vida. Talvez não exija uma busca constante. Ou melhor, buscá-la não faz mal, mas tentar impor essa verdade aos outros é q é cruel. Mas aí ela deixa de ser verdade, penso.

O que é mais antigo no Leonardo Boff: a barba dele ou aqueles óculos enormes? Se bem q ele usava outros, ainda mais velhos.

Eu sempre estou em busca de alguém que tenha algo a dizer e que não "jogue pra arquibancada".

Isso ninguém pode dizer da gente aqui. Nós não jogamos pra arquibancada. Jogamos algumas coisas NA dita cuja.

Heitor Abranches disse...

Sobre a questao do homossexualismo...Suponha que o Mike Tyson no auge dos seus 100 kg de massa muscular e nao sei quantos quintos de forca em seus golpes se sentisse uma bailarina....Qual seria a verdade nesta questao? Como ele se sente? Ou o que ele parece ser para todos que o olham? Talvez ele pudesse perder 50 kg, mudar de sexo,...mas isto nao seria auto-mutilacao? Sera que ele nao estaria deixando de aceitar o que ele e? E assim que eu vejo esta questao...Como alguem pode negar o que e? E porque se sente como algo que existe em sua mente? Suponho que a ilusao seja a mente...E que a ilusao esteja em alguma identificacao que se cristalizou naquele ser...

Heitor Abranches disse...

Existem casos de homossexuais que tiveram um pai abusivo, que desenvolveram uma identificacao excessiva com a mae, que sofreram abusos sexuais na infancia...Eu mesmo conheci certa vez um pai de familia gaucho muito serio que um dia as filhas acharam uma foto dele vestido de mulher porque aparentemente a mae dele queria matar a vontade de ter tido uma filha...O cara nao era gay ate onde eu sei mas era um cara complicado.

Heitor Abranches disse...

Melhor dizendo...havia uma foto dele crianca vestido de menininha para umas fotos...Cada mae louca.

André disse...

Tem razão, tem o gay q não nasceu gay, q não tem essa predisposição genética. Apenas teve uma vida ruim, complicada.

Li em algum lugar, e mulheres na minha família já me contaram isso também, q no interior desse "brasilzão" era muito comum esse tipo de mãe q "força a barra" com essas sandices, por assim dizer...

É esquisito mesmo, nem tanto o homossexualismo, mas o chamado transexualismo, em q o cara (ou a mulher) quer mudar sua fisionomia/anatomia, tudo, enfim. Na cabeça dele/dela, ele(a) é aquela outra coisa q ainda não se tornou, fisicamente. Por falta de dinheiro, muitas vezes, pq essas cirurgias e reconstruções são caras. E tem o tratamento hormonal, q deve ser pesado, já q estamos falando de uma reversão radical.

Deve ser um complexo do tamanho de um bonde, a pessoa vive profundamente insatisfeita, perturbada mesmo. Mas, do jeito q é esse mundo, deve haver os muito satisfeitos com as suas opções, por mais estranhas q estas nos pareçam.

É "freud", é muito "freud"...

Mas vamos falar na Luize Altenhofen!, he, he

Catellius disse...

Estou meio sem tempo de comentar, por isso estou deixando passar um monte de coisas a respeito das quais eu gostaria de dar minha opinião...

O que é "a verdade"?

Existe algo que sabemos, conhecemos, sobre o qual meditamos, que não nos tenha chegado por meio dos cinco sentidos? Até a "revelação" de um profeta chega pelos ouvidos ou olhos.
Podemos confiar plenamente em nossos cinco sentidos quando temos expectativas de "transcendência", quando somos profundamente influenciados por outros "transcendentes" que nos ditam os métodos de atingir a transcendência (ufa)? Eu posso chegar à "verdade" apenas entrando em contato com o "transcendente"? Deveria ser possível, claro, sem nunca ter lido um único livro e ter participado de qualquer grupo. Bastaria que eu implorasse por ela, de olhos fechados, por anos a fio?
O conhecimento absoluto do que é conhecido ou certo é praticamente impossível. O próprio Pirro, de uns 300 anos antes de nossa era, defendia que todas as nossas crenças se baseiam na percepção subjetiva e não podem levar senão a opiniões incertas, nunca a certezas e a "verdades". Até eu fui pirronista naquele post "Não Creio", iniciando todas as frases por um "parece-me que", "acho" e "para mim", evitando as asserções.

Quanto a B16 e as contradições, é engraçado como que a Igreja Católica tem dois pesos e duas medidas. Excomunga os deputados mexicanos que militaram pelo aborto, uma vez que ela ainda é temida por grande parte daquele povo supersticioso, enquanto nenhum parlamentar português que militou pela descriminalização do aborto em Portugal - e não foram poucos - foi excomungado, porque na Europa uma excomunhão não assusta tanto quanto na época de Henrique IV, que desafiou Gregório VII, foi excomungado e correu para a Itália para lhe pedir perdão, tendo de esperar por vários dias sob a neve em frente ao castelo de Canossa até que o papa, chamado de "Santo Satanás", se dignasse a absolvê-lo. Para eles uma excomunhão não seria mais do que um "seu chato, bobo, feio, caolho"...

Quanto aos gays, há vastos estudos sobre agressividade, homossexualismo, espiritualidade, religiosidade e mil outros temas, envolvendo gêmeos idênticos separados no nascimento. Fica fácil separar, percentualmente, os componentes genéticos da influência do meio, após analisarmos uma grande amostragem. A tendência à espiritualidade aparecia freqüentemente nos dois, bem como o homossexualismo e agressividade, enquanto a religião e o time de futebol quase sempre refletiam a influência do meio. Nestes casos, negar a homossexualidade seria negar a própria verdade?
Bem grosseiramente, estudos mostram que 10% da população têm tendências homossexuais, seja aqui seja no Japão.

Não há o risco de eles imporem aos heterossexuais e aos seus filhos seu gosto por indivíduos do mesmo sexo, mesmo se todos os filmes de Hollywood e todas as revistas do mundo estivessem sob seu poder e desejassem esse tipo de proselitismo. Não há risco simplesmente porque a procriação é necessária para a espécie e, por isso, as sociedades sempre estimularão primordialmente o heterossexualismo. Essa campanha pró-gays que vemos é uma tentativa de torná-los aceitos na sociedade, apenas. Pessoalmente, não os considero uma ameaça. Se eles quiserem casar, que casem. Mas não tenho uma opinião formada a respeito da adoção de crianças por gays, embora acredite que não as obrigarão a ser homossexuais. A maior parte dos gays é filha de heterossexuais, não?

Normalmente, em ambientes repressores como o exército e o seminário, onde não há mulheres, em países onde a mulher é reprimida, onde elas rareiam, como a China, os homossexuais pululam. Pelo menos entre os milicos há predominantemente homossexuais que pecam de comum acordo; não sairiam estuprando crianças de seu mesmo sexo, mesmo se houvesse o encobrimento criminoso de seus superiores. Acho que estas instituições atraem pessoas com tendências homossexuais.

E há, obviamente, a influência do meio. Um meio de muita promiscuidade, por exemplo, onde tudo é normal, pode influenciar negativamente as pessoas. Em certos locais, transar com animais é tolerável entre jovens afogados em hormônios inseridos em um ambiente de repressão sexual - na Jordânia, por exemplo. Coitados (literalmente) dos jumentos... E temos também o caso da Grécia Antiga e da Roma decadente, onde havia muitos bissexuais, que tinham esposas procriadoras e obtinham prazer com rapazolas (basta ler Satiricon)...
Enfim, estou meio sem tempo. Já vou indo!

André, ainda tenho que comentar seu texto... Ê, tempo!

C. Mouro disse...

Certo, Heitor, em parte você está certo.
Muitas fantasias não são necessaramente copiadas; muitas são fruto da criatividade mesmo. Além é claro de muitas serem apenas inspiradas em tais roupas.

Vou então mudar o que eu disse, por ter reconhecido um tanto de razão na sua aobservação:

- Mas que fantasias de destaque de escola de samba parecem com as roupas do papa, isso parecem.

O resto segue igual.

Quanto ao julgar, eu entendo que julgar significa analisar e conceber um juizo, atribuindo conceitos sobre certo ou errado, feio ou bonito, bom ou ruim e por aí vai.
Quem não julga não atribui conceitos e muito menos se manifesta sobre tais. Assim, podemos entender que os servos de deus devem apenas obedecer sem nada julgar. Mas neste caso deveriam restringir-se unicamente à palavra de deus ou de JC conforme escrita no livro sagrado. Ou seja, o que não estiver lá explicitado, não deve ser vislumbrado. Mas aí fica dificil, pois no VT o deus manda matar o "homem que deita com outro como se fosse mulher" - já que foi citado o caso dos gays. Se os fiéis forem seguir a palavra do deus sem nada julgar, a coisa vai complicar.

À verdade é mais fácil chegar através do afastamento da mentira. Isso é bem lógico, dado que uma mentira em meio a verdades é suficiente para tornar falsa o conjunto: V+V+V=V e V+V+V+F=F e F+F+F=F

Ora, entrar em contato direto com a verdade é saber absolutamente tudo sobre algo. Mas nem sempre sabemos tudo, daí que podemos crer que sabemos a verdade apenas por não conhecermos a parte falsa. Assim, devemos buscar a mentira das coisas e não a verdade, pois podemos achar muitas verdades num conjunto falso. Ou seja, a existência de algumas verdades não tornam o conjunto verdadeiro, mas sim o contrário, basta uma única mentira em meio a muitas verdade para tornar o conjunto falso.

A questão da tal de fé, é muito complexa. Se ela nos é fornecida, não possui-la não é culpa nossa, e por tal ela não deve servir para nos salvar (seja lá do mistério que for). Por outro lado se ela é mera decisão sem fundamento, ela também não atribui mérito algum se não é fruto da razão, de escolha consciente. Logo, também não deve ser critério de salvação.
No fim das contas, o critério que considero válido é justamente a razão, os juizos que o indivíduo faz é que o qualificam como meritório ou não. Mas aí, de onde vem tal mérito? da alma? ou de características aleatórias? Mas nestes casos, perante o deus as almas não teriam culpa, pois seria uma fatalidade da própria negligência do criador, que criou o mal e o bem e deixou fatores aleatórios fazerem o homem bom ou mau.
Mas e a alma de onde vem? ela também surge da natureza ou é produzida diretamente por deus? e anexada ao indivíduo cujos julgamentos dependem do que se deu na sua formação genética. Ou seja, se os julgamentos para serem mais justos e certos dependem da inteligência do indivíduo, podemos dizer que um sujeito menos dotado não é culpado por julgamentos errados. Da mesma forma que um louco não é culpado, não tem consciência do que faz.

Enfim, essa questão de fé é muito complicada justamente pelo deus não nos revelar a verdade sobre si. Parece que brinca, que que se creia em homens que dele falam, sem dar aos céticos a prova cabal de sua existência e facilitar as coisas.

Se quer que se creia nele e o siga, qual o motivo de não se revelar?
Se quer que os homens se comportem de determindada forma, porque não comunica sua lei claramente, mas através de duvidosos portavozes. De fato só crê que quer crer por algum motivo pessoal. Não há nenhuma evidência para que se creia em tais portavozes; somente a vontade de crer, que tem um motivo psicológico ou material.

Fé é algo demasiado complexo e sem sentido. E apenas podemos verificar muitas falsidades nas ideologias, e isso me parece suficiente evidência para te-las como falsas.

Abraos
C. Mouro

Bocage disse...

Do Janer:

"Não bastasse esta pressão espúria sobre o Legislativo, Ratzinger quer impor ao governo brasileiro uma concordata tão ou mais obscena que o Tratado de Latrão, de 1929, pelo qual a Itália reconhecia a soberania da Santa Sé sobre o território do Vaticano. Poucas pessoas lembram hoje que o Vaticano é uma concessão do ditador fascista Benito Mussolini. Tivesse Mussolini vencido a guerra, talvez constasse da hagiografia da Igreja. Perdeu? Olvidado seja.

Ratzinger não vem ao Brasil apenas para anunciar a canonização de um charlatão, o frei das pilulinhas milagrosas de papel. Isto sempre serve para captar maior clientela. Santos são uma tentativa de amenizar o rígido monoteísmo da Igreja e multiplicar por milhares os subdeuses cristãos, para satisfazer o ancestral instinto pagão das massas. Mas as ambições de Sua Santidade são maiores. A Santa Sé quer que o Brasil torne as aulas de religião obrigatórias no ensino fundamental público, que crie mecanismos constitucionais que dificultem uma eventual ampliação dos casos de aborto legal e encontre formas de evitar que a igreja sofra ações na Justiça, principalmente trabalhistas. Há muito pároco processando as paróquias por questões trabalhistas e o Vaticano, eternamente preocupado com o eterno, abomina essas ninharias do século."

Bocage disse...

faltou um trecho (grifo meu):

"Estas negociações, confirmadas pelo cardeal Don Tarcísio Bertone, segundo homem na hierarquia eclesiástica, estavam sendo conduzidas em segredo. Se vieram à tona, foi por obra da imprensa. Com o rechaço progressivo da Europa à teocracia vaticana, Ratzinger recua estrategicamente para o Terceiro Mundo, onde a Igreja ainda encontraria espaço para sobreviver, graças à pobreza e ignorância das populações do continente latino-americano. Ignorância e pobreza constituem excelente adubo para qualquer religião."
(...)
"...Além do mais, o Vaticano quer foro privilegiado. Reserva-se o direito a calotes trabalhistas, sem que a vítima possa ao menos chiar. Estranha filosofia de uma religião que pretende ser defensora dos pobres."
(...)
"Ao que tudo indica, o papa entusiasmou-se com a política puritana do presidente americano e a quer difundir aos quatro ventos. Bush quer transformar os Estados Unidos numa nação de masturbadores. Ratzinger é mais ambicioso, quer transformar a Terra num planeta de masturbadores. Com uma diferença a favor de Bush. O presidente americano prega a castidade para seu país. Ratzinger vem pregá-la em pátria alheia."

Heitor Abranches disse...

O problema de julgar o proximo e nos supormos superiores a ele de alguma forma em razao de algo.

Como dizia Hermes Trimegistro, assim como e em cima e em baixo...mais tarde esta formula foi copiada para o pai nosso...

sendo assim a verdade esta em baixo tbm...

como dizia a inscricao do oraculo de delfos...conhece-te a ti mesmo...

acredito que a verdade comeca por ai...

ate onde ela vai? nao sei.

Catellius disse...

A frase "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses" também foi dita por Sócrates (originalmente estava afixada à entrada do Oráculo de Delfos). Perguntaram ao oráculo quem era o homem mais sábio do mundo, ao que o oráculo teria respondido "Sócrates". Este, quando informado que fora laureado com esta espécie de Nobel, disse: "deve ser, porque só um sábio reconhece que não sabe nada". Pirro certamente conhecia esta frase de Sócrates.

Aristóteles, por sua vez, disse o mesmo que Sócrates, mas de um jeito mais poético: "No fundo de um um poço, acontece descobrir-se as estrelas".

Também acho que conhecendo a si mesmo o homem estará conhecendo o universo, desde que faça parte dele de fato e não daquele onde só habitam quimeras. É importante olhar para fora, destarte, para conhecermos as estrelas e as reconhecermos quando olharmos seu reflexo no fundo do poço.

Catellius disse...

Muito bem, C. Mouro,

Agora que quase todos os antigos atributos da alma viraram atributos do cérebro, para que alma? É como se dissessem que todos os corpos caem por ação de "Mídions Alados", lhes fosse provado que caem pela gravidade e eles continuassem a acreditar em Mídions Alados, pois são transcendentais e representam bilênios de tradição. Qual a função da alma mesmo? Tem a ver com a personalidade? Com a moral? Com a inteligência? Nope! Ela agora só presta para a pós-morte, já que não faz nenhuma diferença para os vivos... O homem precisa dela para continuar a viver no paraíso e para visitar os parentes vivos. Não existia vida após a morte (oxímoro) na época de Moisés. Segundo o texto de Freud, exposto pelo Heitor, porque os hebreus queriam se distinguir dos egípcios, cuja religião era baseada nisso. Depois, com o contato de outras culturas, especialmente a babilônica, a vida após a morte - e também outras transcendências - voltou a fazer sucesso entre os adoradores de Jeová.

O seu deus escreve certo por linhas tortas? Planejou tudo isso ou os eventos foram obra da associação de milhões de "livres-arbítrios" a agirem ao longo dos séculos? Então, como tal associação aleatória pode gerar uma verdade absoluta? É possível definir em um concílio se Jeová tem duas cabeças ou uma, se tem rabo de pavão? Claro que é possível, afinal eles criaram o deus então podem dizer como ele é, he he. Mas você não pode atingir "a verdade" dessa maneira, sendo escravizado por um povo e copiando seu monoteísmo, ser dominado por outro e copiar seu maniqueísmo, copiar de outro as particularidades de seu messias, de outro a figura da deusa virgem e seu panteão de semideuses, e ao cabo de tudo, quando você atingiu o confortável estágio de senhor opressor, dizer que esta é a verdade absoluta e imutável, "confirmada" pelas experiências transcendentes de santos em êxtase e o diabo que o valha... Funciona para as reses católicas, não para mim.

Nem tudo o que é verdadeiro pode ser provado cientificamente, claro. Um cientista não pode provar que após a morte acaba tudo. Provar que há vida após a morte, contudo, poderia ser possível de milhões de maneiras, desde que houvesse vida após a morte. Uma: um condenado à morte topa o teste e esconde um objeto. Ele morre, aparece como fantasminha aos cientistas em uma câmara blindada onde há apenas uma filmadora e revela onde escondeu o objeto. Se ele não aparecesse não estaria provado que não há vida após a morte, também é certo, posto que alguma "força" o poderia ter impedido de aparecer aos humanos baseado em que uma "prova" poderia acabar com sua fé - que é um grande mérito para o crente. Este, aliás, é a principal razão pela qual, Mouro, um deus não abre os céus e grita "acreditem em mim, pá!". Claro que isto, na minha opinião, é uma boa de uma vacina. Eu digo: "o diabo é enganador e apresenta ótimos argumentos, mas a verdade é esta!" Pronto, o meu crente (cliente) está vacinado... Como o "bem-aventurados os que crêem sem ver"... Para atingir esta "verdade" basta abrir mão de raciocinar. Você deve confiar cegamente em alguém que fez uns truques de mágica e disse que era deus, só isso.

Erro é aceitar apenas o que a ciência comprovou? "Aceitar" significa "admitir", "aprovar", "reconhecer". Eu aceito a possibilidade de milhões de coisas não comprovadas, como vida extraterrestre. Mas não aceito que o homem tem sido visitado por alienígenas. Não faz sentido eles agirem exatamente como os anjos dos cristãos ou almas penadas, aparecendo quando querem, normalmente para os crentes e os impressionados, para os iludidos, lunáticos, etc.

Na verdade, deuses, filhos de deuses, anjos (mensageiros inúteis) e congêneres são questões secundárias. São enfeites. O que realmente importa é: existe alma e vida após a morte? Repetindo, o conceito de alma ficou inútil para os humanos vivos. É natural que ela só sirva para os mortos, para a "transcendência".

Catellius disse...

Finalizando (tenho que ir almoçar)

Um aspecto interessante de tudo o que é "transcendental", religioso, é a sisudez. Claro, pois são coisas tão absurdas que precisam de um ar sacrossanto, intocável. Nenhum profeta ri, e crianças que zombam da careca do sisudo Eliseu são mortas por ursos enviados pelo deus dos hebreus. Não há momentos bem-humorados naquela sisuda Bíblia, é tudo sério demais, ohhhh. Riu de Noé bêbado e pelado? MARDITO!!!!!!

Pois bem, se alguém dissesse para mim que o que o mundo é governado por Satã, que nascemos manchados de pecado, que o homem nunca foi à Lua, que o formato da Terra é cônico, que eu não existo, que todos os cientistas são mentirosos e malignos porque construíram a Bomba Atômica e soltasse ironias e mil "ha ha ha ha ha ha ha"s, acharia que ele estava louco, apenas. Se ele escalasse o Everest sem equipamentos soltando "ha ha ha"s e eu não pudesse fazer nada, só lamentaria.

Esta seria a atitude que eu esperaria de alguém que considera a ascensão de Jesus um fato, perante alguém que faz uma piada de mau gosto sobre isso. Não! Tudo o que é irracional tende a ser sério demais, he he he. O sujeito é blasfemo, herege e o escambau. Fogueira nele!!!!!

André disse...

Só a adoção de crianças por gays eu acho complicada. Também não tenho opinião.

Alexandre Magno era bissexual, Trajano (bom imperador, administrador competente e excelente comandante militar, a meu ver) também era.

Bom Esparta devia ser uma viadagem louca, e aquilo era o militarismo levado às últimas conseqüências.

Julgar é normal. Ter preconceitos também. É impossível não ter. E é também um tipo de juízo que se faz, no final das contas.

Eu, cínico, prefiro procurar pela mentirar pra chegar à verdade.

“Se ela nos é fornecida, não possui-la não é culpa nossa, e por tal ela não deve servir para nos salvar (seja lá do mistério que for). Por outro lado se ela é mera decisão sem fundamento, ela também não atribui mérito algum se não é fruto da razão, de escolha consciente. Logo, também não deve ser critério de salvação.” Exatamente...

Eu só acho que a Igreja deveria pagar todos os impostos que a gente paga. Escolas particulares também. Essas isenções são uma grande filha da...

E agora querem privilégios processuais.

Pra mim, só interessa saber pra onde vamos depois da morte, se há mesmo uma continuação. Mas não me preocupo com a tal alma em si, nem com santos ou um Deus me esperando.

André disse...

Tudo o que é irracional se sustenta por mais tempo com um ar sério. E os fiéis mais bovinos normalmente odeiam qualquer tipo de ironia ou simplesmente demonstração de conhecimento ou inteligência.

***********

Nietzsche:

“Medida das coisas nos espíritos cativos:

Há quatro espécies de coisas que, dizem os espíritos cativos, são justificadas. Primeiro, todas as coisas que duram são justificadas. Segundo: todas as coisas que não nos importunam são justificadas. Terceiro: todas as coisas que nos trazem algum vantagem são justificadas. Quarto: todas as coisas que nos custaram sacrifícios são justificadas. Esta última explica, por exemplo, por que uma guerra que se iniciou contra a vontade do povo é prosseguida com entusiasmo, tão logo se tenham feito sacrifícios. Os espíritos livres que sustentam sua causa perante o fórum dos espíritos cativos têm que demonstrar que sempre houve espíritos livres, ou seja, que o livre-pensar já tem duração. Depois, que eles não querem importunar. E, por fim, que em geral trazem vantagens para os espíritos cativos. Mas, como não podem convencê-los desse último ponto, de nada lhes vale ter demonstrado o primeiro e o
segundo.”

“Os erros de raciocínio mais habituais dos homens são estes: uma coisa existe, portanto é legítima. Aí se deduz a a pertinência a partir da capacidade de viver, e a legitimidade a partir da pertinência. Em seguida: uma opinião faz feliz, portanto é verdadeira; seu efeito é bom, portanto ela mesma é boa e verdadeira. Aí se atribui ao efeito o predicado de fazer feliz, de bom, no sentido de útil, e se dota a causa com o mesmo predicado de bom, mas no sentido de válido logicamente. O reverso destas proposições diz: uma coisa não é capaz de se impor, de se manter, portanto é injusta; uma opinião atormenta, agita, portanto é falsa. O espírito livre, que conhece bem demais o que há de errado nessa maneira de deduzir e que tem de sofrer suas conseqüências, sucumbe freqüentemente à tentação de fazer as deduções opostas, que em geral também são erradas, naturalmente: uma coisa não é capaz de se impor, portanto é boa; uma opinião causa aflição, inquieta, portanto é verdadeira.”

André disse...

“Geralmente o testemunho de maior qualidade e agudeza intelectual do espírito livre está escrito em seu próprio rosto, de modo tão claro que os espíritos cativos compreendem muito bem.”

“No conhecimento da verdade o que importa é possuí-la, e não o impulso que nos fez buscá-la nem o caminho pelo qual foi achada. Se os espíritos livres estão certos, então aqueles cativos estão errados, pouco interessando se os primeiros chegaram à verdade pela imoralidade e os outros se apegaram à inverdade por moralidade.”

“De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém, ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé.”

“Medida para todos os dias: raramente se erra, quando se liga as ações extremas à vaidade, as medíocres ao costumes e as mesquinhas ao medo.”

André disse...

“Os mais sábios de todos os tempos sorriem, acenam e estão de acordo: é tolice esperar a melhora dos tolos! Filhos da sabedoria, façam tolos dos tolos, como deve ser!”

Essa é do Goethe

Roberto Eifler disse...

O artigo do Heitor é muito bom e, como sempre provocativo, e acho que o André deu a resposta definitiva. Como cultura não surge do nada, é sempre herdada, cumpre ver de onde vem nossa cultura e no que ela falhou. Nesse ponto André tem toda a razão e todos damos a mão à palmatória a Max Weber. Gostei muito também da observação sagaz sobre a interpretação materialista da História (que nega a dimensão espiritual do ser humano). Mas o que mais me chamou a atenção foi a forma convincente como André explica nossa cultura não especificamente pela herança portuguesa mas pela ação dos jesuítas sob o espírito da Contra-Reforma. Bingo! A ironia contra o Padre Vieira está muito bem posta. Eu tenho em casa a coleção completa dos Sermões do mestre da língua portuguesa, mas sou obrigado a concordar, entre risadas, que ele “é o precursor do lero-lero de nossas elites”. Quanto à corrupção pública, bingo de novo! A frase de Mark Twain é genial e diz tudo. E realmente é engraçado como o catolicismo é “nosso”, do mesmo modo que a Petrobras. As duas frases finais são definitivas:
Tudo pelo povo, nada para o povo.
Desenvolvimento, aqui, só aquele feito pela autarquia.
O comentário do André não é um comentário, é um ensaio. Vai para os Favoritos.

C. Mouro disse...

Ainda vou ler com calma, mas de pronto mais uma vez me impressiona a capacidade do Catellius compreender e se aprofundar nas idéias.
O André está inspiradíssimo, realmente supremo.
Bem, ainda vou ler, e prudentemente comentar, para não pagar mico ante tantos comentários geniais, de primeiríssima mesmo.

...Raios parta! esse blog é realmente diferente, nos autores e até nos comentários.

Abraços
C. Mouro

C. Mouro disse...

Ia esquecendo; sobre as vacionas há também aquela que diz algo assim (vai de cabeça:
'aqueles que por minha causa forem motivo de chacota, crescerão ante meus olhos', assim, atribui méritos por passarem firmes por isso.

Não lembro com precisão, mas a idéia é essa.
Os tipos tomaram precauções até contra a chacota. ...esse trecho eu considero emblemático como deliberada vacina. Sabiam das coisas.

E realço:

"Claro que isto, na minha opinião, é uma boa de uma vacina. Eu digo: "o diabo é enganador e apresenta ótimos argumentos, mas a verdade é esta!" Pronto, o meu crente (cliente) está vacinado... Como o "bem-aventurados os que crêem sem ver"... Para atingir esta "verdade" basta abrir mão de raciocinar."

Pô, considere-se realçados abaixo os ótimos comentários do André:
.

Abraços
C. Mouro

André disse...

Valeu, pessoal. Mas respostas definitivas nunca devem encerrar uma discussão. Gosto mais do caminho que do ponto de chegada, se é q isso existe.

Conheci um cara que tinha todos os Sermões do padre Vieira. Se leu, não sei. Não faz muito meu tipo de leitura, e a gente tem q ser seletivo, infelizmente. Inclusive com as coisas q nos interessam, o que é o pior.

Essa do “desenvolvimento pela autarquia” era do Paulo Francis, não sei se criada ou se só usada por ele.

Acho q ando meio atacado, por isso a inspiração. Quem sabe tenho outro desses “estalos de Vieira” quando tiver mais tempo pra escrever também (existe uma história engraçada q conta q ele era um tapado até os 15, 16 anos, quando teve um "estalo" no seminário e começou a escrever e se expressar com maestria, daí o tal “estalo de Vieira”).

Sobre esses aforismos de Nietzsche, tirei todos do Humano, Demasiado Humano. Foi o primeiro q li dele. E a do Goethe foi citada por ele nesse mesmo livro.

Costajr disse...

O início do texto é revelador: Lula é nordestino, apesar de na tenra idade viver em São Paulo e de se ter feito na política nesse estado. Lula recebeu muitos votos do nordeste, apesar do maior colégio eleitoral do país ser o sudeste,e ter votado em peso nele, você se diz tentado a aceitar o simplismo de que o nordeste é culpado pelo atraso do Brasil. Você não é sério, é um galhofeiro. Além do mais, norte, sul, nordeste, sudeste, são construções, significam pouca coisa.

Helder Sanches disse...

Bem, a discussão já vai longa mas gostava de acrescentar o seguinte: numa coisa, pelo menos, é notória a influência portuguesa em vocês - procuram nos outros aquilo que é de vossa responsabilidade! ;-)
Por cá também tem muita gente procurando as mais fantasiosas razões para sermos a economia mais lenta da Europa ocidental, termos tanta corrupção, só se falar de futebol, etc, etc... Nós temos um pouco mais de dificuldade em colocar as culpas noutros, é certo, uma vez que somos um país independente há 900 anos, mas o tom é bastante semelhante.
Por isso, meus amigos, a culpa é só vossa pelo que é vosso, assim como a culpa é só nossa pelo que é nosso.

Reparem bem à vossa volta; Portugal conseguiu criar uma unidade nacional nesse imenso território que é o Brasil. Deve ter exigido alguma arte, não lhes parece? Os espanhois não estiveram nem perto disso...

Historicamente aconteceram muitas coisas já depois da independência do Brasil que terão, certamente, mais responsabilidade pelo estado actual do Brasil do que o legado português. Para ser sincero, eu até tenho a sensação de que, tirando a língua para se entenderem, vocês têm feito pouca questão de preservar a influência portuguesa na vossa cultura, por isso, parem de se lamentar ou de tentar ser iguais aos americanos (com os quais ninguém se deveria querer comparar!).

Vocês são um povo magnifico, têm uma cultura linda e rica e um território com uma geografia única no mundo. Parem de se lamentar, invistam no que têm de bom, acabem com o que é mau usando o vosso sentido de auto-critica e tenham muito orgulho em ser quem são.

Eu, por cá, vou tentando fazer o mesmo.

Abraços de Lisboa.

Clarissa disse...

Caro bocage... « Magui, Luisete, Patricia M, Clarissa, Sônia, Susy e outras sem muito estômago para críticas e virulências (do jeito que eu gosto). Criemos uma regra: é vedado discordar de mulheres por aqui. Quando entrarem, mudemos de assunto e passemos a escrever sobre amenidades, rsrsrs ».
E eu, cá no meu Portugalzito colonizador, sem me aperceber das saudades que fui semeando aquém e além :) É que a vida ultrapassa a net e até estou disposta a dar-lhe alguma quota de razão, já que me tenho por demais questionado sobre se vale a pena gastar tempo a escrever quando o mundo lá fora precisa de acção. Um abraço e se quiser trocar amenidade... seja, também sei falar sobre o estado do tempo. ;)

Cattelius e Simone... concordo, naturalmente, com Catellius quando afirma que o povo Brasileiro é mais fruto da civilização europeia, afinal vocês são os descendentes de todos aqueles que de forma livre ou não, para aí foram e não dos povos que antes aí viviam. Portugal terá errado muito ou pouco, seja como for, o povo brasileiro é resultado dessa fantástica mistura de sangues que criou esse português cantado,essa alma inigualável.
Quanto a Ratzinger, só posso lamentar que a Igreja Católica continue a fazer tão pouco pelo que realmente interessa e continue demasiada preocupada com a sexualidade. As questões sociais coadunar-se-iam muito mais com os princípios defendidos pelo catolicismo, mas parece que, como sempre a História nos mostrou, a Igreja se continua a reger pela vivência da sexualidade. Não vejo qualquer crime na homosexualidade, ou no uso de preservativo...mas vejo crime nos governos que ignoram a mortalidade infantil, a violência, a falta de dignidade em que sobrevivem milhões de pessoas pelo mundo fora. É uma pena que, para tantos, tudo se resuma à sexualidade e sejam estes os grandes cavalos de batalha do séc. XXI. Por aqui debatemo-nos com a questão das crianças desaparecidas, da pedofilia, da formatação do meios de comunicação... essas são quanto a mim questões bem mais graves,questões às quais uma Igreja ainda tão poderosa quanto a Católica deveria mostrar mais preocupação.

Abraço a todos.

André disse...

Mas vejamos:

“Temos a tese separatista, defendida geralmente por pessoas de imigração recente que acreditam que o culpado pelo nosso atraso é o Nordeste, que o Brasil carregaria nas costas, e vivem lamentando a presença dos migrantes nordestinos. Pessoalmente, considerando a origem do nosso presidente e a decisiva votação obtida por ele na região em sua reeleição, quando teve em torno de 80% dos votos, até me sinto tentado a apoiar este argumento. Entretanto, não conheço nenhum país que tenha se fortalecido dividindo-se.”

Isso é o q está no texto.

E o Costa Jr. disse:

“O início do texto é revelador: Lula é nordestino, apesar de na tenra idade viver em São Paulo e de se ter feito na política nesse estado. Lula recebeu muitos votos do nordeste, apesar do maior colégio eleitoral do país ser o sudeste,e ter votado em peso nele, você se diz tentado a aceitar o simplismo de que o nordeste é culpado pelo atraso do Brasil. Você não é sério, é um galhofeiro. Além do mais, norte, sul, nordeste, sudeste, são construções, significam pouca coisa.

O Heitor não aceitou esse simplismo, apenas constatou um fato. Acho deprimente que exista gente assim, q discrimina os nordestino, um povo maravilhoso, além de ser uma região de onde saíram alguns dos melhores amigos que tenho e tive. Mas o fato é q existe muita gente q acredita nessa idiotice de q o Nordeste seria um peso para o resto do país, e o autor apenas mencionou isso.

Ah, sim, já q eu fui responsável por aquele quase-ensaio: não tenho nada contra os portugueses, individualmente, mas não posso deixar de ver as coisas como elas são.

E admiro muito o q os lusitanos fizeram em matéria de navegação, claro.

Só isso.

Sobre nossa unidade nacional: segundo Evaldo Cabral de Mello, esta se deve à falta de imaginação do português... mas ele é um cara mordaz...

André disse...

Entrevista:

Aos 61 anos, o pernambucano Evaldo Cabral de Mello é nosso maior historiador em atividade. Evaldo é autor de cinco livros fundamentais sobre a história de Pernambuco, entre eles o clássico Olinda Restaurada, sobre a expulsão dos holandeses, no século XVII, considerado obra de referência por historiadores dos três países envolvidos no episódio. Portugal, Holanda e Brasil e citado até mesmo por Fernand Braudel, uma das grandes autoridades planetárias na matéria. Sua obra se destaca pelo estilo fluente e apuro documental.

Irmão mais novo do poeta João Cabral, Evaldo é um investigador incansável e um historiador tão rigoroso com os personagens que examina que já se confessou incapaz de escrever uma biografia pois não consegue gostar de ninguém a esse ponto. Admirador do presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo papel considera comparável ao do visconde do Rio Branco, que, sob o reinado de Pedro II, lançou medidas destinadas a preparar o fim do regime escravista e a atrair investimentos externos, Evaldo também é um crítico duro de boa parte de nossos intelectuais, como se vê na entrevista abaixo.

Veja Se o senhor fosse historiador no ano 2098, como veria o Brasil dos dias de hoje?

Cabral de Mello Veria o Brasil de 1998 como um país governado por um presidente com vocação de desentupidor de pia, o que é um grande serviço. Quando você olha para o passado, verifica que o Brasil é uma espécie de pia entupida, na qual os problemas surgem, vão se acumulando, mas os governos não fazem nada. Aí, a cada vinte, trinta ou quarenta anos, aparece um governante e remove o lixo. Fernando Henrique está cumprindo essa tarefa, seguindo outros exemplos históricos. Posso citar o visconde do Rio Branco, primeiro-ministro de dom Pedro II. Ele foi o desbloqueador de uma porção de impasses da política brasileira quando chegou ao poder, em 1871. Os grandes problemas, na época, eram o trabalho escravo e, veja como o Brasil não mudou, a atração de capital estrangeiro. Ele criou a Lei do Ventre Livre e incentivou a construção de estradas de ferro por meio de um sistema de garantia de lucros mínimos. O Brasil atual esperou que Fernando Collor fosse essa pessoa, mas ele não tinha maturidade nem preparação intelectual. Já Fernando Henrique é uma pessoa bem preparada, e a prova disso é a conversão que ele fez nas próprias idéias sociológicas de um tempo para cá.

Veja Justamente por isso ele é muito acusado de ter renegado o que escreveu...

Cabral de Mello É uma bobagem. Homem político não tem idéia. Quem tem idéia é sociólogo. Fernando Henrique não foi eleito para aplicar uma teoria. Essa acusação é até um elogio, sinal de que ele não é um fanático das próprias idéias. Além disso, Fernando Henrique gosta de ser presidente. Isso é uma coisa importantíssima, porque você vem de quatro governantes que detestavam ser presidentes.

Veja Mas Sarney jogou pesado para conseguir o quinto ano de mandato e Collor só saiu via impeachment.

Cabral de Mello Fernando Henrique gosta do exercício do poder no sentido autêntico. Os outros só gostavam da liturgia do cargo, da bajulação e das viagens. Sarney, na verdade, não queria ser presidente. Queria ser escritor. Para Collor, a Presidência era um derivativo da vida de playboy. Já Itamar era um engenheiro fracassado e por isso migrou para a política. Nos países desenvolvidos, os governantes são recrutados entre os melhores em suas atividades. Já no Brasil quem não dá certo em nada vira político. Nisso Fernando Henrique também é exceção: ele é um sociólogo bem-sucedido que entrou para a política. Outra particularidade: em qualquer outro país, acabou a Presidência da República tchau!, o sujeito vai para casa ou cria uma fundação. No Brasil, eles viram almas penadas. O que foi Jânio Quadros durante trinta anos? Collor parece que vai seguir o mesmo destino. Vai ficar trinta anos criando instabilidade para o país.

Veja Qual o grande presidente em nossa História?

Cabral de Mello Eu, particularmente, fiquei muito decepcionado com Getúlio Vargas depois que li seus diários. Eles mostram que ele foi um superburocrata. No diário dele não há uma só frase que denote uma convicção. Mas, para o bem e para o mal, Getúlio Vargas é a figura dominante da política brasileira no século XX. Será fundamental para o historiador do futuro entender o Brasil do nosso século, assim como Pedro II em relação ao século XIX. Getúlio durou no Brasil porque tinha qualidades que não eram brasileiras. Primeiro, ele era uma pessoa serena, o que é raro por aqui. Em segundo lugar, era um sujeito com um autodomínio admirável.

Veja Quais são as qualidades do brasileiro típico? Somos os "homens cordiais" dos quais falava o historiador Sérgio Buarque, o autor do clássico Raízes do Brasil?

Cabral de Mello Não acredito que o brasileiro tenha essas qualidades todas que passou a atribuir a si próprio. O que Sérgio Buarque disse não foi entendido direito. Ser cordial pode ser também um defeito. O "homem cordial" é aquele que age com o coração, que não raciocina segundo parâmetros lógicos, mas sim de acordo com impulsos afetivos. Quanto ao destino do povo brasileiro, acho que não somos talhados para nenhuma posição de liderança no mundo. Se conseguirmos ser um Canadá dos trópicos, já estará muito bom.
Veja O que é um Canadá dos trópicos?

Cabral de Mello É um país que nunca teve ambições de liderança mundial, nem será capaz de rivalizar com os Estados Unidos na maioria dos terrenos. Mesmo assim, consegue manter um crescimento econômico respeitável, distribuição de renda exemplar e um regime de liberdade sem defeitos. Podemos esperar mais do que isso?

Veja Então é bobagem falar que um dia o Brasil vai entrar para o Primeiro Mundo...

Cabral de Mello Essa idéia é de um provincianismo enorme. Com o fim do comunismo, não existe mais o Segundo Mundo, portanto acabou também o Primeiro. O que existe são uns nove ou dez países realmente desenvolvidos e o resto — um grupo que engloba nações que vão da Espanha ao Sudão e estão em diferentes estágios. O que importa, em vez dessa besteira, é desenvolver-se o máximo possível sob um regime de liberdade.

Veja Existe um modismo, entre os intelectuais brasileiros, de construir teorias destinadas, supostamente, a explicar o Brasil. Por que isso ocorre?

Cabral de Mello Toda essa tradição de explicação do Brasil, muito antiga, não tem nada a ver com ciência. É um gênero literário, e ainda por cima importado. Todos os países periféricos da Europa, que ficaram à margem do desenvolvimento capitalista, conceberam, no século passado, uma espécie de angústia de identidade — e é por causa dessa angústia que surgem esses livros. Você vê isso na Rússia muito bem. Isso passou para a América Latina. Deu boas coisas, como Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Mas é um problema de país inseguro. Essa literatura é puro impressionismo sociológico. Vamos pegar, por exemplo, um livro-chave da interpretação do país, Retrato do Brasil, de Paulo Prado. A frase inicial diz assim: "Numa terra radiosa vive um povo triste". Se me pagassem muito bem, escreveria um livro partindo do oposto e explicaria o Brasil da mesma maneira: "Numa terra triste vive um povo radioso". O povo brasileiro é alegre. E não há nada mais triste do que a natureza tropical, que é barroca. Você já viu coisa mais deprimente do que Ilhabela? É uma paisagem excessiva, que esmaga as pessoas.

Veja Em sua opinião existem intelectuais brasileiros preparados para entender a realidade do país?

Cabral de Mello O intelectual brasileiro, quanto mais delirante for, mais é considerado inteligente. O cineasta Glauber Rocha era um delirante; o antropólogo Darcy Ribeiro era outro. O essencial do que ele fez foi requentar, sob uma aparência esquerdizante, as idéias de Gilberto Freyre. Gilberto exorcizou o complexo que o Brasil tinha por causa da mestiçagem, transformando isso num valor positivo. Depois dele, essa questão deixou de preocupar os intelectuais — veja a geração de Celso Furtado e Raymundo Faoro, por exemplo. Mas aí vem o Darcy e ressuscita, pelo avesso, um problema que não existia mais, com afirmações do tipo "mestiço é que é bom". Só aqui, também, cantores de música popular viram pensadores. No Brasil, quanto menos objetivo você for, mais você é considerado inteligente. No Brasil, a objetividade é considerada coisa para comerciante.

Veja Que questões do Brasil atual estão passando ao largo da análise de sociólogos e historiadores?

Cabral de Mello Uma delas é o aparecimento do Brasil do interior. Antigamente, o país só tinha litoral e só de São Paulo para baixo havia algum desenvolvimento fora das capitais. Hoje isso mudou. Veja o fenômeno de Petrolina, às margens do São Francisco. Na região de Uberaba, o pessoal tem uma prosperidade incrível. Esse Brasil do interior, que se afirma cada vez mais, tem valores bastante diferentes. Eu diria até que é um Brasil meio vulgar, em relação ao litoral. Em termos de cultura é a boçalidade completa. Uma coisa que me intriga especialmente é a popularidade dessa música sertaneja em termos nacionais. Antigamente, só quem se interessava por música caipira era folclorista. O meu medo é que esse pessoal venha a se afirmar sobre a vida brasileira com formas meio pobres de sensibilidade.

Veja E em termos políticos?

Cabral de Mello Será uma versão mais radical do coronelismo. Os coronéis de hoje, de Goiás, Mato Grosso e Rondônia, têm muito mais poder do que os coronéis do Nordeste. O senhor de engenho mandava sobre uma área pequena. Hoje eles mandam sobre áreas enormes que percorrem de helicóptero. É só lembrar da novela O Rei do Gado. Quando esse pessoal começar a pesar na vida política brasileira para valer, o que deve acontecer nos próximos decênios, a História do Brasil vai ser um pouco diferente. E não vai ser necessariamente melhor. Eu não tenho dúvida de que, do ponto de vista econômico, esse pessoal tem uma mentalidade muito mais aberta, muito mais progressista, do que os coronéis do Nordeste. Mas o impacto deles sobre a vida política do país em trinta ou quarenta anos pode ser muito mais autoritário do que se pensa.

Veja Há atualmente, no Brasil, em relação à História, uma certa "febre comemorativa". Em 1995 foi Zumbi. No ano passado, Canudos. Agora, preparam-se os festejos dos 500 anos do descobrimento. Como o senhor vê isso?

Cabral de Mello Refletir sobre qualquer período histórico é saudável. O problema é você singularizar um período e, aí, criar um mito social, atribuindo a figuras do passado projetos ou ambições que são, na verdade, de hoje. Veja o caso de Zumbi. A base documental sobre esse assunto é escassa, pois no quilombo eles não tinham escrita. Dizer, como se disse, que o movimento de Palmares era de independência nacional é uma besteira. Todo movimento desse tipo visava à constituição de uma sociedade paralela e não a mudar o sistema.

Veja A manutenção da unidade nacional é vista como a grande contribuição da colonização portuguesa para o país. Qual, na sua opinião, o grande legado desse período?

Cabral de Mello Como disse Joaquim Nabuco, a colonização portuguesa tem uma nódoa irresgatável: a escravidão. É a instituição que, por si só, é capaz de explicar o maior número de variáveis da História brasileira. A grande propriedade, o mandonismo, o familismo, tudo isso vem da escravidão. O tráfico de escravos, até o fim, em 1850, foi um negócio de portugueses. O brasileiro se endividava para comprar escravos. Minha esperança é que, ao comemorar os 500 anos de descobrimento, não o façamos de maneira apologética — lembremos também os pontos negativos. Quanto à unidade do Brasil, ela decorre, na verdade, de um defeito português: a pobreza de imaginação. Você repara que todas as praças de cidades do interior, no Brasil, são iguais, seja em Mococa, São Paulo, ou Santarém, no Pará.

Veja O cinema está falando muito sobre temas históricos, como em Carlota Joaquina e A Guerra de Canudos. Como o senhor vê isso?

Cabral de Mello Eu raramente vou ao cinema, mas assisti a Carlota Joaquina. Li um artigo dizendo que era uma revisão da História brasileira. É um absurdo. Nesse filme a diretora usa todos os estereótipos, inclusive a imagem do dom João VI caricato, comendo franguinhos e limpando as mãos na roupa. Como pode ser uma revisão? O historiador Oliveira Lima escreveu, há quase 100 anos, um livro para acabar com todos esses chavões sobre dom João VI. Não adiantou nada, pois a diretora do filme, ao que parece, não leu Oliveira Lima. Ou, se leu, não concordou.

Como historiador, quais foram, na sua opinião, os três fatos marcantes do século?

Cabral de Mello O século XX teve três momentos importantes: 1945, com o fim do nazismo; evitar a guerra nuclear em 1962; e a queda do Muro de Berlim, em 1989. Num caso, tivemos a presença de Churchill, que é na minha opinião o grande personagem do século. É o último grande líder de guerra da História, comparável a Júlio César e Alexandre, o Grande. Em outro, Kennedy — aliás, é interessante notar que, na ocasião, ele teve um equilíbrio admirável. As pessoas reclamam de sua vida privada, de suas infidelidades, mas se esquecem de uma coisa. Ainda bem que Kennedy era um playboy, um hedonista, uma pessoa bem resolvida. Imagine Nixon, uma pessoa torturada, no lugar dele, sendo submetido a uma crise política daquela envergadura. Poderia ser o começo da guerra nuclear. Sobre o final do Muro de Berlim, há um dado interessante. Os americanos sofisticados pensaram várias coisas para acabar com a Guerra Fria. O embaixador George Kennan, por exemplo, veio com a doutrina da contenção e o secretário de Defesa Robert McNamara, com aquele negócio de "retaliação graduada". Aí chegou um boçal, chamado Ronald Reagan, que inventou a "guerra nas estrelas", queria arrebentar todo mundo, e resolveu o negócio em alguns anos. Deu certo, o que prova que a História, muitas vezes, é o reino da boçalidade. Não é coisa para gente inteligente, não.

André disse...

Momento oportuno para um sub-sub- disclaimer:

Em homenagem a Nelson Mandela, vamos fazer um Apartheid:

uma coisa é o indivíduo, outra é o povo/nação/civilização de onde este veio. Não condeno nenhum povo em monobloco, claro, não sou nazista (eles, além de condenar quem quisessem, ainda abriam exceções hipócritas, como quando precisavam das habilidades específicas de algum judeu, do violinista que animava o jantar no alojamento dos oficiais em Auschwitz ao cientista trabalhando no programa de armas...).

Em REGRA, uma pessoa não pode ser culpada pelas políticas de seu país em sua época, a não ser é claro que tenha participado destas por vontade própria, porque quis.
E jamais pode ser culpada se nem fez parte daquela época, se peretence a uma geração posterior.

A entrevista do Evaldo Cabral é velha, mas ainda atual. Esse pernambucano porreta raramente dá entrevistas.

André disse...

Correção: "nordestinoS" num outro comment e "pertence" acima.

Clarissa disse...

Simone... andei a ler as caixas de comentários que estão para trás e percebi que perdi muita coisa e muita discussão. Tenho de facto andado muito afastada da net, sem vontade de escrever, mas acima de tudo por considerar que de pouco ou nada vale escrever. Fiquei muito sensibilizada com um comentário que me dirigias e feliz por saber que a minha voz não é só «ruído». :)
Prometo estar mais presente.
Um beijo sonante :)

Anonymous disse...

Heitor,
Faltou, para além da tese que culpa os genes, a miscigenação, a tese do clima, já levantada por Darwin há mais de 170 anos:

'Não estou surpreso de que as pessoas sejam tão indolentes em um país tão quente'

Anonymous disse...

CostaJr, Galhofeiro significa zombeteiro

O Heitor poderia, a partir daquele parágrafo, ser chamado de preconceituoso, racista, antipetista, antinordestino

Mas galhofeiro ele não foi

Representas o homérico estulto, como sempre

Bocage disse...

E o Imperador abandonou o 'continente do amor' e retornou à Estrela da Morte...

Hipócrita! 'a ICAR não faz proselitismo', 'a ICAR não deve se meter em política'... Nunca havia visto um mentiroso tão descarado!

Reconheço o esforço do Sumo Inquisidor em ser simpático, ele que durante tantos anos se ocupou com a desagradável tarefa de caçar hereges e defender os dogmas com ameaças de excomunhão. Certamente cumpria aquele papel com dor no coração! Expulsar da Igreja aquela gente, puxar a orelha de fulano e cicrano, que dó!

O Brasil é um país um pouco melhor depois que o teocrata retornou à sua Galáxia - na verdade, voltou a ser o que era antes de ele desfilar pelo país seus sapatinhos vermelhos para canonizar um curandeiro que possuía escravos, que construiu a bela igreja, onde jazem as partes de seu corpo que os vermes rejeitaram, com mão de obra movida à coação! Os hagiógrafos tomarão o cuidado de recontar sua vida com pormenores mentirosos do quilate de:

'...bradou aos escravos que quem quisesse ajudar na construção deveria fazê-lo por livre e espontânea vontade, e carregou ele próprio uma pesadíssima viga de madeira até o portal da sacristia. Parecia, naquele sublime instante, o próprio Cristo em sua via sacra. Os escravos, insuflados pela primeira vez por um genuíno sentimento de liberdade, correram a ajudá-lo, e após 666 dias a Igreja estava pronta...'

Santo.... Cuisp! (como fazes, Mouro)

Clarissa, que bom que estás de volta! Minhas preces foram atendidas, rsrs

Bocage disse...

Congratulações pelo teu texto, André.

Destaco o trecho:

'O importante no destino brasileiro é que a colonização se processou sob a Igreja da Contra-Reforma, cujo agente mais radical foi a Companhia de Jesus. Os jesuítas entraram na nossa história numa forma lendária de progresso e benevolência, quando, na realidade, não importa que pretensões e práticas espirituais nos tenham legado, foram agentes de um medievalismo imposto de cima pra baixo, sem relação com os objetivos de desenvolvimento material que garantiram a emergência de nações que se impuseram ao mundo, da Inglaterra aos EUA.'

Se enviássemos a PATAMO sob a coordenação de Plínio Corrêa de Oliveira para colonizar uma determinada região habitada por animistas, não obteríamos resultado diferente.

Ao menos o sábio Marquês perseguiu os jesuítas, em cuja ordem, aliás, desejava ardentemente adentrar o nosso santinho recém galvanizado... rsrs

André disse...

Engraçado: o frei canonizado teve escravos, mas os tratava de tal forma que é como se nem os tivesse. Hagiografia pesada essa...

Bocage disse...

Caro André,
Estou sendo galhofeiro - não na acepção dos estultos.
Imaginei um adendo à sua biografia que poderiam fazer os hagiógrafos. Muito possivelmente o curandeiro cobria os escravos de 'bênçãos', para que trabalhassem melhor, e lhes dava umas bulas para engolir no lugar dos remédios para dor nas costas...

André disse...

De qualquer forma, isso nunca será mencionado quando falarem dele. Virou santo, então tudo o q ele tenha feito em vida agora vai ter uma boa razão oculta. Sempre. E os erros serão devidamente apagados.

Em qualquer enterro, o enterrado sempre é um santo. Canonizado, então... Millôr dizia q um alienígena olhou pro outro, durante uma visita a um cemitério na Terra, e disse: "Ué, onde é q eles enterram todos os canalhas?"

Catellius disse...

"recém galvanizado"
"bulas para engolir no lugar dos remédios"
Ótimo, Bocage! Vou passar a usar, he he

Clarissa, que bom ver você por aqui e, como sempre, com ótimas opiniões!

Helder Sanches, é uma honra ter você por aqui também. Concordo em gênero, número e grau. E acho que o Heitor dá a entender o mesmo, ao final do artigo. Recomendo a todos que visitem o excelente site do Helder, que também escreve no imprescindível Diário Ateísta.

André, EXCELENTE! BRAVO! Pô, da próxima vez mande-me coisas do gênero por e-mail e as publicarei como um novo artigo - se você permitir, claro.

Notícias do Pugnacitas:
O Heitor deve sumir do Pugnacitas por uns dias porque está a trabalho em um certo país europeu e só deve retornar ao Brasil daqui um mês. Vamos ver se arrumo tempo para publicar algo. E há tanta coisa para falar sobre a visita do teocrata...

Abraços a todos

Catellius disse...

Muito boa essa do Millôr, ha ha!

Um "santo" vivo é algo extremamente incômodo para os líderes religiosos. Quando morre todos respiram aliviados, certos de que não poderá mais surpreender ninguém com alguma ação ou declaração desabonadora, de si mesmo ou da instituição à qual está associado.

MIlagres e vida heróica encontram-se em qualquer esquina. Todos meus antepassados foram santos e viam anjos e espíritos de parentes - pelo menos é o que meu avô dizia...

André disse...

Se o cara é santo em vida, pode ser um perigo pra religião q o abriga, pelos motivos q vc mencionou, Catellius.

Sim, aquela frase do Millôr é ótima...

Ok, se um dia escrever outro desses (é raro, quase só leio. Quando escrevo, são pensamentos curtos, não longos, e boa parte deles compartilhados aqui, com vcs)
mando pra vc publicar.

De qualquer forma, é muito bom ter esse espaço e poder conversar com todos vcs. Acho esse site/blog realmente muito diferente da maioria. E ainda tem alguma relação com a cidade onde eu moro!

Clarissa disse...

Bocage... ora, ora... preces?! Bocage era mesmo dado a preces e satírico era coisa que ele não era ;)
Lembrei-me de uma série de poesias de Bocage... mas o meu recato de Senhora impediu-me de aqui as reproduzir ;)

Por aqui faz sol, um tempo ameno que convida à manga curta e a passeios pela praia. E por aí, Bocage, como está o tempo?

Abraço grande poeta, e que as musas o iluminem :)

Bocage disse...

Caríssima Clarissa!

Preces as fazemos quando estamos desesperados, doentes (rs), visto que quase sempre é necessária saúde física e mental para manter-se ateu.

Recato no sentido de honestidade, prudência ou pundonor? Manda-me o link para a poesia, ao menos. E és senhora ou senhorita?

O clima neste lado do Atlântico, nesta latitude e a mais de mil metros acima do nível do mar, está, para mim, um tanto quanto frio, ou seja, provavelmente idêntico ao teu "ameno que convida à manga curta".

'que as musas o iluminem'

Nunca superarei o rival que nunca conheci, o zanaga do Camões, mas já posso jactar-me de ter dialogado com uma tágide! ;)

Abraços!

anonymous disse...

ficam puxando o saco da portuguesa mas nao aparecem em seu blog para comentar suas poesias...

tsc tsc tsc

querem mesmo eh ibope para o bloguixo :-)

Afonso disse...

A respeito de alguns comentários que li sobre a homossexualidade na cultura clássica.

A pederastia era essencialmente um ritual cultural com um espaço e um tempo bem definidos. Havia para os Gregos uma diferença clara entre a pederastia e a homossexualidade, tal como é hoje entendida.

Contudo, parece ser indiscutível a teorização do amor ideal, platônico (Quem aprecia Platão, afinal?), como a possibilidade de ser concretizada quase exclusivamente entre dois indivíduos do mesmo sexo, a saber, o masculino. Sobre estas questões sugiro que leiam K. J. DOVER, Greek Homosexuality.

Klatuu o embuçado disse...

«A tese da colonização portuguesa também é bastante popular. Seríamos assim porque recebemos um monte de degredados da "terrinha" que trouxeram para cá todos os vícios imagináveis. Muitos adeptos desta tese lamentam a expulsão dos holandeses. O curioso é que muitos portugueses não se consideram europeus e têm uma auto-estima muito baixa. Acho que uma de nossas diferenças em relação a eles é que somos bipolares, temos momentos alternados de euforia megalômana e de depressão lusitana.»

As ascendências europeias dos Brasileiros nos Portugueses é um mito: há mais descendentes de Italianos e Espanhóis no Brasil do que descendentes de Portugueses... mas como Portugal foi a «nação colonizadora»... enfim... há que pôr culpas no que parece óbvio!

A «alma brasileira» não é lusitana... outro mito... É, sim, ibero-americana... O Brasileiro sorri para os desconhecidos e mete conversa nas paragens de autocarro (ônibus)... Português é sisudo mesmo! :)

A possível baixa auto-estima de alguns Portugueses nada tem que ver com se considerarem, ou não, Europeus... mas sim com as circunstâncias económicas, sociais e políticas que Portugal atravessa... Quando os Portugueses não se consideram Europeus... isso nada tem que ver com a mania brasileira do «1º mundo»... simplesmente, a Península Ibérica tem características, geográficas e culturais, de um sub-continente europeu... é, até, uma civilização diferente da restante Europa, com todas as características da Civilização Mediterrânica.

Abraço.

P. S. Quem «expulsou» os Holandeses... foram os Brasileiros... Portugal não o poderia ter feito sem o esforço e o empenho dos nascidos no Brasil... Mas como sabeis: os Holandeses ficaram... e alimentam ainda grandes mitologias patetas acerca da maior europeidade de S. Paulo! Grande cidade, sem dúvida... mesmo considerando a grande injustiça social e os vícios dos ricos e os bandidos de metralhadora nas ruas...

P. P. S. Numa coisa concedo que vocês são bem «Portugueses»... no gosto de dizer mal do vosso País e de meter as culpas em terceiros! :)

André disse...

Nem brasileiros nem portugueses tinham força para expulsar os holandeses. Se Portugal tivesse entrado em guerra total com as companhias comerciais holandesas, teria sido esmagada, aqui e talvez até na Europa. Eles entraram numa longa negociação, que durou muitos anos, descrita em O Negócio do Brasil, de Evaldo Cabral de Mello, terminado por comprar o Nordeste dos holandeses com uma quantidade enorme de ouro. Pois sabiam q sua situação mundial era frágil demais para tentar um conflito em larga escala contra os holandeses.

Se a Holanda tivesse entrado com tudo nessa interminável guerrinha de guerrinhas, he, he, nessas "microguerras" incessantes entre ela e Portugal, os portugueses e brasileiros sabiam q não iriam agüentar.

Por falar em revisionismo e história contrafactual/alternativa (o velho "e se..."):

Há também, pra quem prefere um holandês, a "hipótese Calabar", Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho mulato, brasileiro, que traiu seus companheiros, passando para o lado holandês. Terminou garroteado e esquartejado, não sem antes conseguir vários sucessos contra os portugueses.

E se ele tivesse sido bem sucedido e os holandeses tivessem expulsado os portugueses e tomado o Brasil inteiro? Eu não tenho opinião segura. Essa vai para as calendas gregas, my friends, como tantas outras!

Klatuu o embuçado disse...

Está sempre a tempo de fazer um estágio na Holanda e lhes perguntar se quando levavam com bala no lombo... era de ponta de ouro? :)

Catellius disse...

Klatuu,

Acho que todos concordamos com você. O Heitor expôs as teses mais conhecidas que explicam o atraso brasileiro, concluindo que somos "rebeldes sem causa". Sobre o português sentir-se ou não europeu, concordo com você. Muita coisa mudou desde 1998 - ocasião da Expo.

Veja o comentário do André de 10/05/07 00:21,

Veja o meu comentário de 10/05/07 14:51,

o de Roberto Eifler de 12/05/07 18:12,

o de Helder Sanches de 13/05/07 01:41,

e o de Clarissa de 13/05/07 09:36,

Abraços

Klatuu o embuçado disse...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Recuperação_de_colónias_portuguesas_depois_da_Restauração

Klatuu o embuçado disse...

Abraços.

Catellius disse...

Link para os que não gostam de CTRL+C e CTRL+V:

Recuperação de colónias portuguesas depois da Restauração

Catellius disse...

Mas vejo a relação de duas das "teses" descritas no artigo:

O Nordeste empobreceu muito quando a família real portuguesa transferiu a capital de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808, sobretaxando os produtos nordestinos, drenando-lhes seu capital humano, desviando os recursos outrora destinados às ricas cidades de Salvador e Recife. São Paulo cresceu um pouco no embalo, como cidade de abastecimento.

Acho que a vocação natural brasileira era ter continuado a se desenvolver no Nordeste, que está mais próximo geograficamente do Caribe, EUA e Europa. O Rio, na época, era uma cidadezinha com ares marroquinos, de ruas estreitíssimas cortadas por muxarabis e gelosias (treliçados de madeira). Uma coisa interessante é que os ingleses exigiram que os portugueses acabassem com os "gothicos costumes" do Rio de Janeiro e banissem todos esses elementos mouriscos, abrindo caminho para os vidros de fabricação inglesa. Como eles demoraram a chegar e poucos tinham recursos para instalá-los, as casas ficaram anos expostas, com rombos nas paredes tampados por panos e palmas.

Não há culpados diretos pelo atraso brasileiro. Podemos dizer que o culpado indireto pelo atraso do Nordeste foi Napoleão, cuja invasão iminente obrigou D. João VI a abandonar Portugal????? ha ha ha

Catellius disse...

André,

"Por falar em revisionismo e história contrafactual/alternativa (o velho "e se..."):"

Lembrei-me dos estultos que afirmam, tentando debalde relativizar os crimes da Inquisição, que o século XX foi o que mais matou da história. Você escreveu há pouco tempo que foi apenas o século mais documentado. Nada mais correto.

É como dizer que um homem em uma cadeira de rodas que tenta assassinar todas as crianças de uma escola a pauladas não é tão malvado como aquele que soltou uma bomba e acabou com todas. O segundo tinha meios, o primeiro não.
Acho que podemos partir para o "e se" às vezes.
Volte ao passado e dê as armas que existiam no séc. XX para os cruzados ou para os sarracenos. Eles louvariam a "granada sagrada" (ou a bomba atômica sagrada), como no filme do Monty Python, e deixariam o século XX no chinelo.

Claro que após uma ou duas carnificinas iriam assinar acordos de desarmamento como os que existem hoje. Não por motivos morais mas por questão de sobrevivência.

Abraços

Glênio Gangorra disse...

A culpa pelo atraso é a visão equivocada que os governos de esquerda são contra a Igreja. Como camarada militante muito me honrou ver nosso amado Lula fazer as pazes com esse que é o líder da Igreja Católica. Bento XVI foi muito feliz em trazer seu apoio inconteste à causa do movimento democrático nacional-socialista bolivariano. Ficamos pasmos como um ser estrangeiro europeu conseguiu aglutinar tantas vertentes dispares, incluindo-se aí os liberticidas reacionários e fascistas maquineístas, em uma só voz. Pelo que me lembro somente nosso guru, Marx, conseguiu tamanho feito. Aos que pensam que nós, revolucionários de esquerda, somos insensíveis à religião se enganam tolamente. Por ser o ópio do povo e por que o povo é o cerne do bolivarianismo, a religião é uma importante ferramenta para atingir a todos aqueles que almejam a libertação do capitalismo massacrante.

André disse...

Estou adorando os comentários desse post.

Recuperação de colónias portuguesas depois da Restauração... Obrigado, vou ler isso aí quando puder!

Catellius, muito informativos seus comentários históricos:

“O Rio, na época, era uma cidadezinha com ares marroquinos” Há, há, ótima... só faltava o Indiana Jones correndo por elas.

“Não há culpados diretos pelo atraso brasileiro. Podemos dizer que o culpado indireto pelo atraso do Nordeste foi Napoleão” Acho q Napoleão pode ser culpado de mil coisas. Se vivesse hoje, imagine as teorias conspiratórias q não inventariam sobre ele. Se Bush virou o capeta basicamente por causa do Iraque, imagine o nosso Napô!

Sim, o XX foi apenas o século mais documentado. A única coisa q me faz hesitar é o horror nazista, q se diferenciou de outros por ter sido a 1ª vez q o homem se utilizou da tecnologia, digamos, industrial, para matar. Genocídio em escala industrial, “maquinária”, foi o primeiro. Mas, por outro lado, se os mongóis, os maias ou a Igreja da Inquisição (vê-se q fui bem variado nessa...) e tantos outros tivessem tido esse “luxo”, teriam feito igual ou pior. E os nazistas tiveram pouco tempo. Pegue aí da ascensão do cabo austríaco, 1933, até o início de 1945. Entre 33 e 37, havia mais era experimentos, preparação, planejamento. Em 38-39 a coisa esquentou. Acho que 40-41 até 44 foi o auge do extermínio, principalmente 42 a 45. Nada, em termos históricos.

Exatamente dentro do q vc disse.

Schopenahuer disse q se achamos um Robespierre terrível, é pq não temos consciência de q há milhões deles por aí, porém impotentes...

Aquela parte do filme do Monty Python em q o cara lê as instruções pra se usar a santa granada de mão é de matar de rir...

Glênio Gangorra! Quero dizer q esse capitalista liberal pequeno-burguês, inimigo do “lúmpem” proletariado e culturalmente colonizado aqui é o maior fã do JEGUE VERMELHO!

André disse...

Bom, estou com as minhas mãos aqui queimando de vontade pra transcrever um certo livro inteiro, de tão bom (citar trechos não adiantaria muito), mas não dá, então aviso: é bom pra c... [PALAVRÃO] esse livro:

O Império Marítimo Português, C.R. Boxer (historiador inglês mil-e-uma utilidades, foi até chefe do serviço secreto inglês em Hong Kong. Morreu em 2000)

Escrito em 1969.

Editora (no Brasil): Cia das Letras. A nossa edição parece ser a mais completa, mais do q a inglesa.

Leitura elegante, porém fácil. Flui. Sem o rebuscado chato de um Evaldo Cabral (q é bom, mas adora dar voltas e fazer cricunvoluções, e logo com a nossa língua, q é ótima pra essas coisas, então o texto termina arrastado e cansativo, por mais q a Veja o chame de "claro" sempre q sai um livro dele).

Boxer levou mais de 40 anos pra fazer esse livro. 400 e tantas páginas, conciso, considerando q cobre todo o império marítimo lusitano. Aspectos negativos e positivos, tudo muito bem explicado, sem chateação acadêmica.

Destaque para os capítulos 11 ("Pureza de sangue" e "raças infectas"), 15 ("Os cafres da Europa, o Renascimento e o Iluminismo) e 16 ("Sebastianismo, messianismo e nacionalismo"), simplesmente sublimes.

Uma aula sobre a glória, a decadência e a ruína. Cruel em muitos aspectos com os portugueses, mas não o autor, e sim o q ele cita (portugueses e brasileiros falando mal de portugueses, p. ex.).

Mas... sem bairrismos, sejam os nossos ou os de além-mar: a mim me parece ser um livro acima desse tipo de coisa. É simplesmente do c... [OUTRO PALAVRÃO] Não só pq ele era uma das maiores autoridades em história portuguesa e holandesa, "lusoneerlandesa". Mas pq o cara era bom mesmo.

André disse...

Mudando um pouco de assunto: se alguém aí se interessa por assuntos militares, Uma História da Guerra e Inteligência na Guerra, ambos de John Keegan e da Cia. das Letras, valem a pena.

Falou, pessoal

Helder Sanches disse...

E mudando ainda um pouco mais de assunto: vocês conseguem imaginar o samba cantado em holandês? Eu não! ;-)

Catellius disse...

Schopenahuer disse tudo. André, o homem dos aforismos, he he. Onde guarda tudo isso? Na cachimônia? he he

O Rodrigo Constantino acabou de publicar um artigo intitulado "Os Cinco Princípios da Opressão".

"Os cinco princípios de organização social, econômica e política que oprimem o indivíduo seriam, segundo o autor, o corporativismo, o mercantilismo, o privilégio, a transferência de riqueza e a lei política."

Catellius disse...

Boa essa, Helder

"vocês conseguem imaginar o samba cantado em holandês?"

ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha ha

Obviamente, sem o lundu, o maxixe e as modinhas sequer haveria samba para ser cantado...
Um português me disse, tempos atrás, que o fado teve forte influência do lundu tocado no Brasil, além, é evidente, da música dita moura (almorávida, sei lá) e da dos trovadores, européia. A informação procede?

Ed disse...

Não há culpados, porque não há atraso!

É tudo questão de ponto de vista. O que é atraso?

Temos saúde (?) pública precária, entretanto, ela é solidária e gratuita de verdade. Vai nos EUA (que não tem atraso) e tenta ser atendido em hospital público sem seguro (caríssimo, por sinal).

É fácil chamar de atraso por não termos algo bom que custa caro e não vermos que o que temos precário, com um pouco de melhora e ajustes, vai ficar bom e continuará gratis.

Pior é melhorar (?) na base da privatização como foi a telefonia, que só dá dor de cabeça aos usuários.

Temos, realmente, liberdade. Não temos prisão em Guantanamo sem direito a julgamento justo e a advogados.

Temos mortes violentas e lamentáveis de cidadãos atingidos pela luta de gangs (especialmente no Rio de Janeiro). São quadrilhas formadas no meio da pobreza onde o tráfico oferece mais facilidades que qualquer emprego que eles tenham acesso.

Mas, no primeiro mundão? Jovens de classe média, secundaristas e universitários promovem matança sem motivo...

Será que nós temos atraso?

Para nós falta muito pouco e tenho confiança de que vamos conseguir.

Falta uns desonestos/corruptos na cadeia, temos avançado neste campo.

Falta gastar mais com prevenção de doenças e saneamento, porque é melhor que gastar com doenças.

Falta combate efetivo ao desperdício. Já pensou amigo que o desperdício de uma família classe média dá pra sustentar uma pessoa pobre? só com o desperdício.

Abraço.
Ed

Bocage disse...

Gostei de teu comentário, Catellius,

Gostava que o Nordeste ainda fosse o coração do país. Infelizmente, os latifundiários promovidos a coronéis e autorizados a formarem milícias, por ocasião das revoltas que estouraram durante a Regência, mantiveram muito de seu poder até há pouco, quando o Bolsa Esmola acabou com os currais dos pequenos coronéis e alçou o Apedeuta ao posto de Coronel Supremo do Nordeste. Largará o osso em 2010? Façam suas apostas.

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Catellius:

Há tempos estava a "falar com os meus botões" a propósito de uma cena da vida real e dei comigo a formular esta máxima que, apesar de não ser nada de especial, conseguiu o raro efeito de me surpreender:

- "O incompetente é exímio em colocar nos outros a culpa das suas próprias insuficiências."

Esta máxima aplica-se na perfeição a toda a análise que coloca nos outros a culpa de qualquer atraso que o Brasil possa conhecer na actualidade.

Para os USA foram deportados os maiores criminosos e incompetentes que a coroa não queria em "terras de sua majestade", para a Austrália idem.
Qualquer destes países conheceu o processo de colonização.
Gostaria de referir em particular a Austrália por ficar "no outro canto do mundo".
É o exemplo claro de que um país se constrói com as pessoas que o constituem.

Para os "Velhos do Restelo" que culpam Portugal deveriam antes pensar que foi ele, tal como é, com defeitos e virtudes, que aguentou as fronteiras conhecidas do Brasil e sempre se soube opor ao seu desmembramento.

Portugal é o país com as mais antigas fronteiras da Europa... e isso não é por acaso.

Mesmo a norte, na Galiza espanhola, há uma maior identificação com Portugal do que com o resto de Espanha.

Estes nossos irmãos galegos em Portugal tentam falar português (o galego é em grande parte idêntico, a mãe de D. Afonso Henriques era galega), mas quando em Espanha, em qualquer zona de Espanha, não abdicam de falar em Galego.

Tenho vários amigos galegos e é um prazer conviver com eles.
Transparece um respeito recíproco a que não é alheia a história.

Esta é uma questão que nós, portugueses, há muito ultrapassámos, nomeadamente após a Revolução Democrática de 25 de Abril de 1974.

Por cá já nem ousamos culpar Salazar pelo atraso a que votou Portugal durante mais de 50 anos, numa fase de desenvolvimento industrial exponencial a nível internacional.
Foi uma oportunidade perdida.
Mas isso já pertence ao passado.

Temos que ser nós, as gerações actuais e futuras, a construir o nosso futuro.
Culpar os antepassados a nada conduz.


... e lembrem-se:

- "O incompetente é exímio em colocar nos outros a culpa das suas próprias insuficiências."

... vão ver que, durante a vossa vida e em variadíssimas circunstâncias, vão constatar muitas vezes esta realidade.

Um abraço,

José Alberto Mostardinha disse...

http://www.visiteurope.com/ccm/where_to_go/detail/?nav_cat=206&lang=pt_BR&item_url=/NTO-Portugal/uniquepages/regions/portugal.es

André disse...

Mostardinha:

“Gostaria de referir em particular a Austrália por ficar "no outro canto do mundo". É o exemplo claro de que um país se constrói com as pessoas que o constituem.”

Certíssimo. Mas porque a mentalidade era outra (USA, Austrália). Houve colonizações e colonizações...

Portugal é o país com as mais antigas fronteiras da Europa por uma questão político-geográfica. Não havia muito pra onde correr, enquanto a Espanha ao lado continuasse firme em suas guerras com as demais potências. E a geografia muitas vezes determina o destino geopolítico de um povo. Portugal foi refém dos interesses ingleses e franceses, ou fazia isso ou ficava sem proteção contra a Holanda e a Espanha.

“Mesmo a norte, na Galiza espanhola, há uma maior identificação com Portugal do que com o resto de Espanha.” Assim como na fronteira polaco-alemã há esse tipo de identificação entre um e outro, dialetos, afinidades. Isso acontece por toda a Europa.

Pena q não passa das zonas de fronteira.

O que obviamente não invalida seu raciocínio. Só uma observação...

André disse...

O Brasil Holandês: em vez de Silvas, teríamos um monte de Wanderleys (Van Der Ley, puro holandês). Luis Inácio “Van” Wanderley, presidente do país batavo. O Brasil seria o maior exportador de Batavinho do mundo, nunca antes nestepaiz...

Mas vejam Nassau, q nasceu mesmo foi na Alemanha, Deutschland Über Alles!

É, Catellius, tudo na cachimônia, meu reservatório de cultura inútil (e quem disse q ela tem q ser útil?).

Dançaríamos algo como aquelas polcas ou danças tirolesas? Não, a Holanda não é o Tirol, nem polonesa.

André disse...

Mas vejamos... alguém aí em cima disse q atraso é só uma questão de ponto de vista. Sim, do alto da minha cobertura nos Jardins, em São Paulo, não sei que tanto atraso esses descontentes na tv vêem...

Aliás, meu elitismo de cobertura me diz q deve ser bom ser pobre: tem tanta gente!

Palmas, palmas das senhoras gordas da platéia. E a Hebe nem entrou ainda, aquela “gracinha”.

Atraso é atraso.

E é atraso porque não temos quase nada bom, que funcione regularmente, de forma segura e garantida, proveniente do Estado. Algo precário que com uns remendos possa continuar “de grátis” não é bom, é precário. E algo que é precário com “alguns ajustes” continuará precário. Precisamos de eficiência escandinava, estradas alemãs, hospitais suíços e capacidade de empreeendimento anglo-saxã, quem sabe a genética dê um jeito nisso um dia..., mas não precisamos de vaquinhas holandesas nos pastos, alta costura francesa ou torneiras sauditas folheadas a ouro no banheiro todo laqueado e com diamantes incrustados nos azulejos. Pelo menos não fornecido pelo Estado. O melhor não necessariamente sai mais caro. O melhor é mais eficiente, logo implica em economia, por falar nisso.

Impostos deveriam servir para tanto.

Ah, claro, as dores de cabeça dessa telefonia móvel balcânica que nós temos... vamos voltar para a anterior, pré-cambriana, com fósseis de moluscos e tudo. Essa não dava dor de cabeça. Nem podia, porque não estava lá pra nos atender.

Vamos voltar aos telefones do Brás!

Lembram da expressão: “Isso é do tempo em que o Brás era tesoureiro?” Pois é, bateu uma saudade e eu fui ver o que tinha acontecido com o Brás. Rapaz, ele soube se arrumar. Mas arrumação provoca arrumação, ninguém se contenta. O Brás comprou uma empresinha de pesquisa de petróleo que chamou de, como?, claro, PetroBrás. Depois fundou outra pra explorar energia elétrica, a EletroBrás, outra de energia nuclear que chamou de NucleBrás e ainda uma, gigantesca, que denominou de TeleBrás. Vai bem o moço.

E por falar em privatização, essa coisa nefasta: por que não se começa privatizando todos os ministérios? Diminuiríamos em 90% o número de tecnoburocratas, juristas, sindicalistas e ocultistas fiduciários que vivem coçando o saco e enchendo o nosso, enquanto esperam o ponto facultativo que, aliás, é obrigatório.

O que temos, realmente, são presídios superlotados e um judiciário quelônio, jabuti. Não temos prisão em Guantánamo, mas pelo menos lá há alguma supervisão (mínima, mas há) da Anistia Internacional, já há advogados, restritos, e a corte, ainda que militar, pelo menos funciona. Se o 11/9 tivesse sido aqui, a Al-Qaeda já estaria telefonando de dentro de Bangu XXI e marcando um pagodinho com Ayman Al-Zawahiri, egípcio de moral, grande “responsa”, “cumpádi” do Macaco, amigo do Pato, do Corredor 16, chegado de “sua chefia” Osama Bin Laden.

Não quero saber se os tiros vem de “meninos” do tráfico ou de um sul-coreano abonado q levou um fora da namorada na doce Virgínia. O que eu acho é que o primeiro caso é bem mais freqüente do que o segundo.

O tráfico pode oferecer mais “facilidades”, mas também garante uma vida curta.

“Para nós falta muito pouco e tenho confiança de que vamos conseguir.”

Parece até aquele slogan de um governo aí desses q tivemos: “Brasil, país forte, nação soberana.”

É, enquanto esse dia não chega, eu, traidor da pátria amada, idolatrada, salve, salve, vou vender sonhos em forma de pó branco em Medelín. Vou pra informalidade.

Quando estivermos andando em calçadas forradas com o ouro que roubaram de nós, enquanto as crianças nadam em rios de chocolate, eu volto.
E Willy Wonka será nosso presidente.

“Falta uns desonestos/corruptos na cadeia, temos avançado neste campo.”

Sim! Começando por um eneadáctilo que “presenteia”, não preside, essa fazendinha. E outros 950.475.719 de seus correligionários. Sem contar os que votaram nele. Só precisamos de um ataque nuclear massivo da nação amiga norte-americana.

“Falta gastar mais com prevenção de doenças e saneamento, porque é melhor que gastar com doenças.”

Parabéns, Flipper! Já estou abrindo a latinha de atum pra vc! Claro q é melhor prevenir do q remediar!

“Falta combate efetivo ao desperdício. Já pensou amigo que o desperdício de uma família classe média dá pra sustentar uma pessoa pobre? só com o desperdício.”

Ah, que meigo! Momento de conscientização pequeno-burguês.
Vamos expiar nossas culpas, todos, virtualmente, dêem as mãos...

Que tal privatizar a pobreza, deixar todos na mesma, quem sabe não seria mais “justo”, certo?

E eu aqui, desperdiçando energia elétrica com esse computador, energia esta q bem poderia estar sendo usada pela minha amiga Waldisneyde pra cozinhar seu feijão. E ela tem pressa, porque já vai começar o terceiro ato de Lohengrin, a ópera wagneriana. Sim, como boa ovelha, eu acredito q um dia a alta cultura será acessível às massas!

Nossa, deve ser uma África que morre toda vez que eu acendo a luz aqui em casa... Um acender do fogão é um genocídio de deixar as SS envergonhadas. Já parou pra pensar q muitas vezes os pobres também desperdiçam pra valer, por falta de consciência? Sabia que é muito difícil, ainda q não impossível, preservar uma consciência moral firme em meio à miséria? Porque pobreza é uma merda, meu caro, é um estado primal de sobrevivência. E pra sobreviver a gente faz qualquer coisa.

Contudo, os pobres nem sempre são essa abstração lúdica, esses bons selvagens de Rousseau pintados na tv, para espanto do jeca diante dela. E não pense que há muita diferença entre o jeca que vê tv e o de 60 anos atrás. Hoje os temos até na presidência. Democracia, dirão alguns. Só tem um problema: o fato de um camponês chegar a rei não faz de um reino uma democracia. A tecnologia veio, mas pouca coisa mudou, exceto a quantidade... Lampião e colegas se mudaram pra cima da classe média, na verdade, de todos nós. Dá dó, que diminui em proporção à proximidade, aos apelos que nos fazem e que podem ser outra coisa, à violação que impõem ao nosso conceito de humanismo, pelo que são, porque, em última análise, não há uma linguagem comum entre nós, nada há entre nós, exceto colisões ocasionais e o desconcertamento de um e outro que, ao se olharem, vêem refletida de maneira hostil a imagem que têm ou gostariam de ter de si próprios.

O olhar do outro, vácuo, vazio de proteínas, um olhar de q desviamos rapidamente o nosso, deve ser o mesmo de 500 anos de estupefaciência nacional.

Ei, mas temos estadistas capazes como o Ribamar, com seu bigode escovão, um especialista em miséria. Tanto q a mantém in vitro lá no Maranhão, um dos estados onde predominam os “vastos desertos e charnecas”, nas palavras de José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1815.

Talvez o mistério mais enigmático de nossa sociedade seja como tanta gente sobrevive com um salário-mínimo.

Isso é q tem que ser resolvido, não o “pobrema” do tal desperdício nababesco.

Ou essa gente um dia explode.

Aparecerá o Antônio Conselheiro, o pai-de-santo apropriado. Hitler e Khomeini não são acidentais. Decifraram o inconsciente das massas.

Heitor Abranches disse...

André,

Isto que vc falou sobre os líderes decifrarem o inconsciente é a pura verdade.

Acho que o Lula é exatamente isto...Um comunicador aparentemente uma besta mas que por baixo da sua comunicação ridícula ele se comunica com o insconciente da massa.

Ele comunga com eles. Eles se identificam com aquela criatura na qual projetam suas esperanças e esperam proteção contra os seus medos.

Logo, logo alguém vai propor a canonização do Lula....Agora ele vai ser Santo de que?

André disse...

Heitor, a coisa ainda piora.

Já passei por situações em q criticar o Lula diante de pessoas de certo nível intelectual (nem sempre relacionado a classe social, se bem q a gente tem q tomar cuidado também quando fala dele entre gente de certas classes) me rendeu hostilidade, só.

Mas isso não é o pior.

O pior é conviver com gente de classe média-"média" e média-alta, ou até a alta/principesca, que acham o cara um santo, um ser dotado de alguma forma mágica de sabedoria espontânea, a tal sabedoria dos pobres ou popular. Se bem q respeito a sabedoria popular. Gosto dela. Pra mim a "sabedoria" dele é a do pobrismo, essa exaltação da verminose raspa-prato nacional, na qual o pior vira o melhor. Ser vítima - até certo ponto - é q é bom.

Demagogo como ele é, e saído desse meio, ele manipula isso como ninguém.

O pobre, nos círculos intelectuais mais baixos desse país, muitas vezes é tratado como um ser ungido por uma força superior e presenteado com essa suposta sapiência mágica, simples, e exatamente por isso "santa".

O ignorante em geral, não só o pobre, é visto como um tipo superior em muitos lugares. Como se ser burro fosse um tipo de liberdade, sei lá. Certamente ela é vista como uma forma de superioridade. As pessoas quase sempre desconfiam do intelectual sério. Quando não o associam ao pseudointelectual, simplesmente o consideram arrogante, pronto.

Sem falar na inveja. Afinal, ele é visto como possuidor de algo q eles não têm e que compreendem, quando muito, parcialmente.

Tentar defender uma posição com argumentos E demonstrar cultura/conhecimento superiores são dois caminhos certos para ser hostilizado em certos ambientes. Não só no Brasil mas, como vivo aqui, falo depois de ter observado a "experiência" local por bastante tempo.

Pra mim, o brasileiro médio sofre de preguiça mental em sua acepção mais ampla. Onde se exige cabeça, ele faz corpo mole.

Lord of Erewhon disse...

Tudo muito interessante... e tudo já visto.

No entanto, permitam-me acrescentar algo simples... que está para além dos maniqueísmos «nova história» que por aqui abundam: a Vontade dos Povos, a sua Alma!

Os senhores são cidadãos do maior país da América do Sul, e o único em que se fala Português, e, apesar de haver muitos brasis dentro do Brasil, este mantém uma inegável unidade nacional... No meu entender, este é o aspecto de Vontade e de Alma que melhor traduzem a «portugalidade» do Brasil: Brasil e Portugal não existem enquanto nações por causa dos sucessos e dos insucessos da História... mas sim porque Brasileiros e Portugueses assim o quiseram... e contra nações mais poderosas!
O Brasil, pelas suas dimensões, se deveria ter partido em mil pedaços... mas continua inteiro, rodeado de nações que não têm essa unidade. Portugal, pequena nação, deveria ter sido devorado pelas nações poderosas que o rodeiam - o Atlântico e o Mediterrâneo nunca foram fronteiras mas corredores -, mas Portugal existe... e poucas nações europeias com as suas dimensões são tão respeitadas e admiradas, na Europa e no Mundo!

Pensem nisto.
Cumprimentos.

André disse...

Portugal não foi engolida por acaso, não por qualquer mérito próprio ou "vontade" oculta.

Não há tantos "Brasis" dentro do Brasil, a monotonia é mais aparente quando vista de perto.

Os "maniqueísmos nova história" aqui trataram muito bem dessa vontade dos povos. Na verdade, da falta de vontade de alguns deles em serem responsáveis por seu destino.

Prefiro falar em mentalidade à "vontade de alma" (nenhum ranço religioso nesse caso, aliás), mas isso é uma questão de gosto, acho.

Catellius disse...

Ainda sobre um assunto que ficou para trás:

"Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo inteiro" certamente não pode se aplicar a uma reflexologia barata nos moldes da iridologia. Só porque o átomo de nossos livros do segundo grau parece-se com o nosso sistema solar, não significa que, literalmente, tudo o que está embaixo é uma miniatura do que está em cima, que os átomos são universos cheios de vida inteligente, como o colar do gato do filme MIB. Não podemos levar essa bela frase ao pé da letra. As leis naturais "variam" de acordo com a escala, por exemplo. A tensão superficial permite que uma formiga caminhe sobre a água, a resistência do ar permite que um grilo caia do alto do Empire State e não se esborrache no chão. A matéria muda absurdamente de acordo com as forças térmicas, gravitacionais, magnéticas, etc. às quais é submetida. Como nós humanos só existimos dentro de condições específicas - uma simples mudança de altitude e a conseqüente diminuição de oxigênio pode nos matar - é certo que não poderemos conhecer o interior do Sol e a fusão de Hidrogênio para Hélio apenas meditando e olhando para nós mesmos. Não poderíamos sequer experimentar as reações de nosso próprio corpo a baixas temperaturas, pois morreríamos (óbvio ululante). A não ser que injetemos uma dose cavalar de metafísica na jugular. Aí tudo será possível. Lembro-me do relato daquele indiano do momento em que teria atingido a kundalini. Segundo ele, passou a ter consciência até de uma poeira "x" que estava em Netuno. Bull shit, he he!

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